A genealogia da palavra


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Carlos Nejar »»
 
Os Viventes (1979) »»
 
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A genealogia da palavra
La généalogie de la parole


Minha morte começa a madurecer
e depois vou comê-la como uma pêra, 
largando o caroço fora
e depois vai vir uma semente
com o mesmo nome
que vai crescer e amadurecer.
Mas já não é minha morte —
é surpresa da terra apenas —
descendência de uma morte futura.
Depois as gerações perdem de vista
a própria morte que aparece
como um fio de água no meio das pedras,
visível a um e outro profeta.

Mas nada abalará a espécie:
a vida também foi vista
como um fio de água no meio das pedras.
Só que não se podia distinguir
os fios e as águas que conversavam entre si,
sem preconceito.
E até moravam junto, vez e outra.

Depois, minha morte vai amadurecer de novo
mas não será da mesma natureza.
E aprenderei a falar com o mundo.

E o mundo vai amadurecer como uma pêra
e depois vai vir uma semente
com o mesmo nome.
Porém, já serei eterno.
Ma mort commence à mûrir,
je vais bientôt la manger comme une poire,
puis, au loin ayant jeté le trognon
une graine va germer,
du même nom
qui grandira et mûrira.
Mais ce n'est plus ma mort –
ce n'est qu'un effet de terre inattendu –
dans la lignée d'une mort future.
Par la suite, les générations perdent de vue
leur propre mort qui ressemble
à un filet d'eau parmi les pierres,
visible seulement pour tel ou tel prophète.

Mais rien n'ébranlera l'espèce :
la vie elle aussi était perçue
comme un filet d'eau parmi les pierres.
Seulement on ne pouvait distinguer
les filets d'eaux qui conversaient entre eux
sans préjugés.
Parfois même ils pouvaient vivre ensemble.

Ma mort plus tard, mûrira de nouveau,
mais elle ne sera plus de même nature.
Et j'apprendrai à parler avec le monde.

Et le monde va mûrir comme une poire,
et une graine va germer
du même nom.
Mais éternel, je le serai depuis longtemps.
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Concetto Pozzati
Poire (1967)
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