Canto grande


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Canto grande
Une grande chanson


Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

Je n'ai plus de chansons d'amour.
Je les ai toutes jetées par la fenêtre.
Seul je suis resté en compagnie
de la langue et le monde s'est éclairci.

J'ai gardé de la mer la meilleure vague
Celle qui varie moins que l'amour.
Et j'ai gardé de la vie la douleur
de tous ceux qui souffraient.

Je suis un homme qui a tout perdu
mais qui a créé une réalité,
une flambée d'images, un gisement
de choses qui n'explosent jamais.

De tout, je recherche l'essentiel :
l'aqueduc d'une ville,
l'autoroute du littoral,
le reflux d'une parole.

Loin des cieux, même les plus proches,
et près des confins de la terre,
me voici. Ma chanson est faite
d'un parpaing qui résiste à l'hiver.

Toujours mon cœur bat
de sa meilleure chanson d'amour.
Pour toute l'humanité, il bat
car il n'est pas seul, en vérité.

Je peux à présent communiquer
Et sais que le monde est très grand.
Prends mes paroles par la main, élève-les
à des géographies absolues.

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Anselm Kiefer
En principe (2008)

A garrafa


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A garrafa
La bouteille


A garrafa guarda a bruma
da maior noite do mundo
mas o vulto de meu pai
está imóvel nas brumas
sem canção de desespero.
Da garrafa sai um rio
que banharia Paris
se todos nós nos erguêssemos
em torres de fá maior.
Meu pai imóvel nas brumas
nas brumas sem desespero
domina os arranha-céus
fecha a álgebra da noite
esvaziando a garrafa
de um líquido inexistente
onde dormem tentações:
uma estação, um piano,
uma flor de botoeira,
algumas bibliotecas
sem La Chartreuse de Parme
e o sono, doçura intacta.
Entornando essa garrafa
sobre a minha vida triste
fico eternamente bêbedo
canto nos cais, nos desertos,
aspiro hálitos do céu
e vou pela vida ao léu
quase lúcido de bêbedo!

La bouteille garde la brume
de la plus grande nuit du monde
mais le visage de mon père
est figé dans les brumes
Sans air ni chant de désespoir.
De la bouteille sort un fleuve
qui baignerait Paris
si tous nous montions
dans les tours du fa majeur
Mon père figé dans les brumes
dans les brumes sans désespoir
domine les gratte-ciel
ferme l'algèbre de la nuit
vide la bouteille
d'un liquide inexistant
où dorment les tentations :
une gare, un piano,
une fleur à la boutonnière,
certaines bibliothèques
sans La Chartreuse de Parme
et le sommeil, d'une douceur intacte.
Renversant cette bouteille
sur ma triste vie
Je me saoule à jamais, et chante
sur les quais, aux déserts,
Je hume les relents du ciel
et conduis ma vie dans une brume
d'ivrogne presque lucide !

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Giorgio Morandi
Grande nature morte métaphysqie (1918)

A crepitação


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A crepitação
Le grésillement


Qualquer vida é naufrágio e perdimento.
Quando chegamos ao fim da restinga
encontramos apenas mar e vento.

Onde estão nossos sonhos? Um errante
raio de sol sumiu entre a folhagem,
dentro de nós o dia fez-se pálido.

Cercado pela luz da madrugada
e de mim rodeado, estou sozinho
entre as grutas da terra e a ira do mar.

Última luz da derradeira festa,
crepita na manhã a eternidade.
E a eternidade é tudo o que me resta.

Toute vie est un naufrage et une perte.
En arrivant tout au bout de la plage
Nous ne trouvons que la mer et le vent.

Où sont nos rêves ? Rayons de soleil
Errant disparus dans le feuillage,
Le jour a pali à l'intérieur de nous.

Entouré des lumières de l'aube,
À l'entour de moi-même, je suis seul
dans les grottes et sous l'ire de la mer.

Lueur ultime d'une fête dernière,
L'éternité grésille au petit matin
Et l'éternité est tout ce qui me reste.

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Claude Monet
Tempête, côtes de Belle-Île (1886)

A coruja branca


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A coruja branca
La chouette blanche


Em minha casa entre as árvores ouço o rumor da noite.
O vento escorraça os astros crepitantes.
As montanhas descem em direcção ao mar como rebanhos
que não tivessem esperado a licença da aurora
 [para a migração necessária.
E a erva cresce. E a água corre. E o mundo recomeça
como uma palavra interrompida. E as nuvens caem do céu
e rastejam no caminho danificado pelas chuvas de janeiro.
Um pio atravessa a folhagem murmurante.
A coruja branca, minha irmã sedentária,
vigia na escuridão o mundo abandonado
por tantas pálpebras fechadas.

Dans ma maison entre les arbres j'entends la rumeur de la nuit.
Le vent attise les étoiles qui crépitent.
Les montagnes descendent vers la mer ainsi que des troupeaux
qui n'attendent pas la permission de l'aurore
 [pour l'indispensable migration.
L'herbe pousse. Et l'eau coule. Et le monde recommence
à tenir son discours interrompu. Et les nuages tombent du ciel
et ils rampent sur le chemin défait par les pluies de janvier.
Clin d'œil au travers du feuillage murmurant,
la chouette blanche, ma sœur sédentaire,
surveille dans l'obscurité le monde abandonné
par tant de paupières closes.

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Albrecht Dürer
Petite chouette (1508)

Minha pátria


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Plenilúnio (2004) »»
 
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Minha pátria
Ma patrie


Minha pátria não é a língua portuguesa.
Nenhuma língua é a pátria.
Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
e o vento que sopra em Maceió.
São os caranguejos que correm na lama dos mangues
 e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho.
 Minha pátria são os morcegos suspensos no forro das igrejas carcomidas,
os loucos que dançam ao entardecer no hospício junto ao mar,
e o céu encurvado pelas constelações.
Minha pátria são os apitos dos navios
e o farol no alto da colina.
Minha pátria é a mão do mendigo na manhã radiosa.
São os estaleiros apodrecidos
 e os cemitérios marinhos onde os meus ancestrais tuberculosos e impaludados não param de tossir e tremer nas noites frias
e o cheiro de açúcar nos armazéns portuários
e as tainhas que se debatem nas redes dos pescadores
e as résteas de cebola enrodilhadas na treva
e a chuva que cai sobre os currais de peixe.
A língua de que me utilizo não é e nunca foi a minha pátria.
Nenhuma língua enganosa é a pátria.
 Ela serve apenas para que eu celebre a minha grande e pobre pátria muda,
 minha pátria disentérica e desdentada, sem gramática e sem dicionário,
minha pátria sem língua e sem palavras.

Ma patrie n'est pas la langue portugaise.
Aucune langue n'est une patrie.
Ma patrie est la terre molle et collante où je suis née
et le vent qui souffle sur Maceió.
Ce sont les crabes qui courent dans la boue des mangroves
 et l'océan dont les vagues continuent de mouiller mes pieds quand je rêve.
 Ma patrie ce sont les chauves-souris suspendues aux voutes des églises délabrées,
les fous de l'asile en bord de mer qui dansent au crépuscule,
et le ciel incurvé par les constellations.
Ma patrie ce sont les sirènes des bateaux
et le phare au sommet de la colline.
Ma patrie c'est la main du mendiant par un matin ensoleillé.
Ce sont les arsenaux pourrissants
 et les cimetières marins où mes ancêtres tuberculeux et impaludés ne cessent de tousser et de frissonner dans les nuits froides
c'est l'odeur de sucre des entrepôts du port
les mulets qui se débattent dans les filets des pêcheurs
des restes d'oignons entortillés dans les ténèbres
la pluie qui tombe sur le poisson des viviers.
La langue que j'utilise n'est et n'a jamais été ma patrie.
Aucune langue fallacieuse n'est la patrie.
 Elle ne me sert qu'à célébrer ma grande et pauvre patrie muette,
 ma patrie dysentérique et édentée, sans grammaire ni dictionnaire,
ma patrie sans langue et sans paroles.

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Cândido Portinari
Enfant mort (de la série "Retirantes" - 1944)

O barulho do mar


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O rumor da Noite (2000) »»
 
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O barulho do mar
Les rouleaux de la mer


Na tarde de domingo, volto ao cemitério velho de Maceió
onde os meus mortos jamais terminam de morrer
de suas mortes tuberculosas e cancerosas
que atravessam a maresia e as constelações
com suas tosses e gemidos e imprecações
e escarros escuros
e em silêncio os intimo a voltar a esta vida
em que desde a infância eles viviam lentamente
 com a amargura dos dias longos colada às existências monótonas
e o medo de morrer dos que assistem ao cair da tarde
quando, após a chuva, as tanajuras se espalham
no chão maternal de Alagoas e não podem mais voar.
 Digo aos meus mortos: Levantai-vos, voltai a este dia inacabado
 que precisa de vós, de vossa tosse persistente e de vossos gestos
 enfadados e de vossos passos nas ruas tortas de Maceió. Retornai aos sonhos insípidos
e às janelas abertas sobre o mormaço.
Na tarde de domingo, entre os mausoléus
que parecem suspensos pelo vento
no ar azul
o silêncio dos mortos me diz que eles não voltarão.
Não adianta chamá-los. No lugar em que estão, não há retorno.
 Apenas nomes em lápides. Apenas nomes. E o barulho do mar.

Dimanche après-midi, je rentre du vieux cimetière de Maceió
où mes morts n'en finissent plus de mourir
de leurs morts tuberculeuses et cancéreuses,
traversant l'air marin et les constellations
avec leur toux, gémissements, imprécations
et leurs sombres crachats,
en silence, je les intime de revenir à cette vie
dans laquelle depuis l'enfance ils vivaient calmement
 avec l'amertume des longs jours adossés à des existences monotones
avec la peur de mourir de ceux qui regardent le soir tomber
quand, après la pluie, les fourmis tanajuras se sont répandus
sur le plancher maternel d’Alagoas et ne peuvent plus voler.
 Je dis à mes morts : Levez-vous, retournez à ce jour inachevé.
 qui a besoin de vous, de votre toux persistante et de vos gestes
 ennuyés, de vos pas dans les rues tortueuses de Maceio. Retournez aux rêves insipides
et aux fenêtres ouvertes sur le temps lourd.
En ce dimanche après-midi, parmi les mausolées
qui semblent par le vent suspendus
dans l'azur de l'air,
le silence des morts me dit qu'ils ne reviendront plus.
Il ne sert à rien de les appeler. Où ils sont, il n'y a pas de retour.
 Que des noms sur des stèles. Des noms seulement. Et les rouleaux de la mer.

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Wassily Kandinsky
Cimetière arabe (1909)

A passagem


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O rumor da Noite (2000) »»
 
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A passagem
Le passage


Que me deixem passar - eis o que peço
diante da porta ou diante do caminho.
E que ninguém me siga na passagem.
Não tenho companheiros de viagem
nem quero que ninguém fique ao meu lado.

Para passar, exijo estar sozinho,
somente de mim mesmo acompanhado.

Mas caso me proíbam de passar
por ser eu diferente ou indesejado
mesmo assim passarei.
Inventarei a porta e o caminho.
E passarei sozinho.

Que l'on me laisse passer – telle est
ma réclame devant la porte ou le chemin.
Que personne ne me suive, moi passant.
Je n'ai pas de compagnon de voyage
ni même ne veux quelqu'un à mes côtés.

Pour passer, j'exige d'être seul,
accompagné uniquement de moi-même.

Mais si l'on m'interdit de passer
pour être différent ou indésirable
alors je passerai quand même.
J'inventerai la porte et le chemin
Où moi seul pourrai passer.

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Mimmo Paladino
Stupor mundi (2010)

A queimada


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A queimada
Le brûlot


Queime tudo o que puder:
as cartas de amor
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência
e anuncia a arterioesclerose
os recortes antigos e as fotografias amareladas.

Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.
Seja como os lobos: more num covil
e só mostre à canalha das ruas
os seus dentes afiados.

Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.
Destrua os poemas inacabados, os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas.

Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita.

Brûle tout ce qui se peut :
les lettres d'amour
les notes de téléphone
la pile des vêtements sales
les factures et certificats
les indiscrétions des confrères rancuniers
la confession interrompue
le poème érotique qui entérine l'impuissance
et prélude à l’athérosclérose
les vieilles coupures et les photos jaunies.

Ne laisse aux héritiers affamés
aucun héritage par écrit.
Sois comme les loups: vis dans une tanière
et ne montre tes crocs acérés
qu'à la canaille des rues

Vis et meurs recroquevillé dans ta coquille.
Dis toujours non aux rinçures électroniques.
Détruis les poèmes inachevés, les brouillons,
les variantes et les fragments
qui provoquent l'orgasme tardif des philologues, des scoliastes.

Ne laisse aux pilleurs d'immondices littéraires que les miettes.
Ne confie à personne ton secret.
La vérité ne peut pas être dite.

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Pedro Berruguete
Autodafé de livres hérétiques (1493-1499)

Promontório


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Promontório
Promontoire


Sempre busquei a profusão das chuvas
e celebrei o excesso.

A porta que se abre à claridade do relâmpago
divide o dia em partes desiguais.
Mas entre a luz e a sombra há um espacço
onde o sonho e a vida acordada se juntam como dois corpos
separados das almas desunidas.
É a este lugar que retorno
quando a chuva cai em Maceió e derruba as folhas
dos cajueiros floridos.
Os goiamuns inquietos percebem nas locas a alteração
 [do mundo
que oscila entre a lama e as raízes dos mangues
como duas cores do arco-íris.

Berço de tanajuras, patria ameaçada pelo trovão,
dunas sonâmbulas que só caminham à noite,
mar que umedece os lábios rachados da areia,
vento que dilacera o promontório,
longe de vós serei um exilado.

Toujours j'ai cherché la profusion des pluies
et célébré l'excès.

La porte qui s'ouvre à la clarté de l'éclair
divise le jour en parties inégales.
Mais entre la lumière et l'ombre est un espace
où le rêve et la vie éveillée se joignent comme deux corps
séparés d'âmes désunies.
C'est de ce lieu que je reviens
quand la pluie tombe sur Maceió et rabat les feuilles
des noix de cajou en fleurs.
Inquiets les crabes en ces lieux perçoivent l'altération
 [du monde
qui oscille entre la boue et les racines de mangrove
comme deux couleurs de l'arc-en-ciel.

Berceau des fourmis atta, pays menacé par le tonnerre,
dunes somnambules qui ne marchent que la nuit,
mer qui mouille les lèvres craquelées du sable,
vent qui dilacère le promontoire,
loin de toi je vais être un exilé.

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Wassily Kandinsky
Paysage sous la pluie (1913)

Os dois estranhos


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Os dois estranhos
Les deux étrangers


Todos os amantes terminam separados.
O amor é um barco que veleja
a maré que se levanta quando a balsa fende a água unida na
laguna que suga os clarões da terra
o avanço de uma hélice na noite estrelada.
Aos que viram o dia abrir-se como a cauda de um pavão
ou atravessam a tarde coberta de escamas
aos que ficam abraçados em camas sempre estreitas
e partilham a respiração do êxtase ouvindo
 [uma torneira gotejar
na sombra
está reservada a separação
como uma tatuagem que o tempo inscreve
 [na anca bem-amada.
A porta antes fechada se abre para sempre
para que os corpos se cruzem e não se reconheçam.
Amor é escuridão. E quando a luz se acende
somos dois estranhos que evitam olhar-se.

Tous les amoureux finissent par se séparer.
L'amour est une barque déployant ses voiles
à marée haute lorsque la coque fend les eaux unies de la
lagune qui suce les clartés de la terre,
c'est l'avancée d'une hélice dans la nuit étoilée.
À ceux qui ont vu se déployer le jour comme la queue d'un paon
ou qui traversent le soir couvert d'écailles,
à ceux qui restent enlacés dans des lits toujours étroits
et qui partagent le souffle de l'extase en écoutant
 [un robinet goutter
dans l'ombre
est réservée la séparation
comme un tatouage que le temps inscrit sur la
 [hanche bien-aimée.
La porte fermée autrefois s'ouvre pour toujours
afin que les corps se croisent et ne se reconnaissent plus.
L'amour est obscurité. Et quand s'allume la lumière
Nous devenons deux étrangers qui évitent de se regarder.

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Edward Hopper
Excursion en philosophie (1959)

Recomeço


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Crepúsculo civil (1990) »»
 
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Recomeço
Recommencement


Como o cavalo que relincha impaciente
e bate os cacos diante da estalagem
e com o rabo fustiga as moscas que o importunam
assim a morte está sempre à nossa espera.

Após a primeira morte outras virão
e continuamos a morrer, habitando o espaço
onde se movem os pássaros e as abelhas
e o peixe imprudente que salta entre as pedras.

Tudo em nós é recomeço, origem devolvida.
Além da noite escura encontramos o dia,
reinício da vida leve como palha
que estremece perene entre as estrelas.

Comme le cheval qui hennit d'impatience
et devant l'auberge, bat du sabot et chasse
de sa queue les mouches qui l'importunent
ainsi est la mort toujours à nous attendre.

Après la mort première, d'autres viendront
et nous continuons de mourir, habitant l'espace
où se meuvent les oiseaux et les abeilles
et le poisson imprudent qui saute entre les pierres.

Tout en nous recommence, l'origine revient.
Au-delà de la nuit noire, nous retrouvons le jour,
la vie redémarre légère comme de la paille
Qui frémit éternelle entre les étoiles.

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Maurits Cornelis Escher
Ruban de Moebius II (1963)

A clandestina


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A clandestina
La clandestine


- Quem é esta clandestina
que dentro de mim viaja

e de mim não se separa
mesmo quando estou dormindo

e aparece nos meus sonhos
breve e leve como a neve?

Quem é esta clandestina
doce e branca e feminina

que me segue quando saio
sombra em mim dissimulada

e torna a voltar comigo
colada ao cair da tarde?

Quem é esta clandestina
que de mim não desembarca?

Sou seu trem ou seu navio?
Seu barco ou seu avião?

E sua voz me responde:
- És meu berço e meu jazigo.

Antes mesmo de nasceres
eu já estava contigo.

E sempre estarei em ti
até o fim da viagem.

– Qui est cette clandestine
qui voyage en moi

et qui de moi ne se sépare
même quand je suis endormi

et qui apparaît dans mes rêves
légère et brève comme la neige ?

Qui est cette clandestine
douce et blanche et féminine

qui me suit quand je sors
ombre en moi dissimulée

et s'en retourne avec moi
engluée à la tombée du jour ?

Qui est cette clandestine
qui de moi ne débarque jamais ?

Suis-je son train ou son navire ?
Sa barque ou son avion ?

Et sa voix me répond :
– Tu es mon berceau et mon caveau.

Avant même de naître
J'étais déjà avec toi.

Et je serai toujours en toi
jusqu'à la fin du voyage.

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Voltolino Fontani
La fille triste et pâle (1938)

A lição de Turner


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Mar Oceano (1987) »»
 
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A lição de Turner
La leçon de Turner


Lembre-se de Turner, que não copiava o pôr-do-sol.
Com tintas e pincéis, ele o inventava.

E não se esqueça dos que, no silêncio da noite,
evocam o que foi roubado pela morte:
um seio, um grito, um riso entre as árvores.

Eles também inventam e aprendem a mentir
e a dizer a verdade.

Souvenez-vous de Turner qui, avec pinceaux et couleurs,
ne copiait pas le coucher du soleil mais l'inventait.

Et n'oubliez pas ceux qui, dans le silence de la nuit,
évoquent ce qui fut dérobé par la mort :
un sein, un cri, un rire entre les arbres.

Ils inventent aussi et apprennent à mentir
et à dire la vérité.

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William Turner
Soleil couchant sur le lac (1840)

A visita do lenhador


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A Noite Misteriosa (1982) »»
 
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A visita do lenhador
La visite du bûcheron


Abres a porta e entras.
Trazes o frio do mundo
das folhas caídas no chão
da lama e do estrume unidos
no fundo da tarde escurecida.
Trazes o cheiro das madeiras
molhadas pelas chuvas repetidas
e o silêncio das colmeias abandonadas
pelas abelhas migradouras.
E o frio que trazes aquece a cozinha
como se fosse uma fogueira.

Tu ouvres la porte et tu entres.
Tu apportes le froid du monde
des feuilles tombées au sol
de la boue et du fumier réunis
dans le fond de l'obscurité du soir.
Tu apportes l'odeur des bois
mouillés par des pluies qui redoublent
et le silence des ruches abandonnées
des abeilles migratrices.
Et le froid que tu apportes réchauffe la cuisine
comme un feu de joie.

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Renato Guttuso
Le bûcheron (1950)

Condição para aceitar


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A Noite Misteriosa (1982) »»
 
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Condição para aceitar
Condition pour accepter


Que a morte me lembre
um mar transparente,
só assim a aceito:
silêncio final
dentro de meu peito,
perfeição de vagas
brancas e caladas,
paisagem abolida
no horizonte raso
do mar sem coqueiros,
vazio do mundo
após a palavra
que quis dizer tudo
e não disse nada.

Que la mort me rappelle
une mer transparente,
seulement ainsi je l'accepte :
silence d'une fin
au-dedans de ma poitrine,
perfection de vagues
blanches et silencieuses,
aboli paysage
sous l'horizon bas
d'une mer sans cocotiers,
monde vide
après le langage
tout ce que je voulais dire
et jamais ne dirai.

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Gustave Courbet
Côte de Normandie (1872)

O cemitério dos navios


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O cemitério dos navios
Le cimetière des navires


Aqui os navios se escondem para morrer.

Nos porões vazios, só ficaram os ratos
à espera da impossível ressurreição.

E do esplendor do mundo sequer restou
o zarcão dos beiços do tempo.

O vento raspa as letras
dos nomes que os meninos soletravam.

A noite canina lambe
as cordoalhas esfarinhadas

sob o vôo das gaivotas estridentes
que, no cio, se ajuntam no fundo da baía.

Clareando madeiras podres e águas estagnadas,
o dia, com o seu olho cego, devora o gancho

que marca no casco as cicatrizes
do portaló que era um degrau do universo.

E a tarde prenhe de estrelas
inclina-se sobre a cabine onde, antigamente,

um casal aturdido pelo amor mais carnal
erguia no silêncio negras paliçadas.

Ó navios perdidos, velhos surdos
que, dormitando, escutam os seus próprios apitos

varando a neblina, no porto onde os barcos
eram como um rebanho atravessando a treva!

Les navires se cachent ici pour mourir.

Il ne reste que les rats dans les cales vides
attendant l'impossible résurrection.

Et de la splendeur du monde pas même
le cramoisi des lèvres du temps.

Le vent rugine les lettres
des noms que les enfants épelèrent.

La chienne de la nuit lèche
le guano des cordages

sous le vol strident des mouettes
en chaleur, qui s'accouplent au fond de la baie.

Clarifiant les bois pourris et les eaux stagnantes,
le jour, avec son œil aveugle, dévore le crochet

qui marque dans la coque les cicatrices
de la coupée, ce marchepied de l'univers.

Et le soir, gros d'étoiles
se penche sur la cabine où, autrefois,

un couple abasourdi par l'amour le plus charnel
se dressait dans le silence des palissades noires.

Ô les navires perdus, vieux sourds
qui écoutent, assoupis, leurs propres sifflets

transperçant le brouillard. Les bateaux dans le port
étaient comme un troupeau traversant les ténèbres !

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Alberto da Veiga Guignard
Cimetière de navires (1939)