Marianna e Chamilly


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Marianna e Chamilly
Marianne et Chamilly


Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades

Terei
sempre saudades
e gosto assim
Quand bien même
tu partirais partant
j'aurai des regrets
et quand bien même
tu resterais restant
j'aurai des regrets

J'aurai
toujours des regrets
et j'aime ça
________________

Jean-Baptiste Santerre
Illustration des Lettres portugaises de Gabriel de Guilleragues, 1669 (1699)
...

Lisboa


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Lisboa
Lisbonne


Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de jacarandás

Cidade dourada
semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba
Cité blanche
semée
de pierres

Cité d'azur
ensemencée
de ciel

Cité noire
comme une impasse

Cité déserte
comme un entrepôt

Cité lilas
au semis
de jacarandas

Cité dorée
parsemée
d'églises

Cité argentée
disséminée
du Tage

Cité qui se dégrade
cité qui s'éteint
________________

Carlos Botelho
Lisbonne (1962)
...

Ficar à escuta


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Ficar à escuta
Rester à l'écoute


Ficar
à escuta

À escuta
do silêncio
Rester
à l'écoute

À l'écoute
du silence
________________

Julius Schmid
Beethoven se promène dans la nature (1901)
...

O fim começa-se…



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O fim começa-se…
La fin commence…


O fim começa-se
No próprio princípio,
Na sua negação prolongado.
Assim, também a voz
Tantas vezes, em si mesma
Prisioneira
Da morte de tantos poetas
E ninguém sabe.
La fin commence
À son principe même,
En sa négation prolongée.
Il en va ainsi de la voix
En soi-même si souvent
Prisonnière
De la mort de tant de poètes
Et personne ne le sait.
________________

Carla Accardi
Au coeur de la nuit (1986)
...

Deus é um boomerang


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Deus é um boomerang
Dieu est un boomerang


Deus é um boomerang
e eu sou a sua filha pródiga
Dieu est un boomerang
et je suis sa fille prodigue
________________

Peinture rupestre aborigène (Mains et boomerang)
Gorges de Carnarvon, Queensland (Australie)
...

As Vénus esteatopígias…


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As Vénus esteatopígias…
Les Vénus stéatopyges…


As Vénus esteatopígias pré-históricas
são tão belas como a Vénus de Milo
o que há é pouca gente para dar por isso
ainda haverá alguém?
Les Vénus stéatopyges préhistoriques
sont aussi belles que la Vénus de Milo
peu de gens s'en rendent compte
mais un jour, peut-être ?
________________

La Vénus de Willendorf
(Paléolithique supérieur, 23000 av. J.-C.)
...

A minha Musa


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A minha Musa
Ma Muse


A minha Musa antes de ser
a minha Musa avisou-me
cantaste sem saber
que cantar custa uma língua
agora vou-te cortar a língua
para aprenderes a cantar
a minha Musa é cruel
mas eu não conheço outra
Ma Muse avant d'être
ma Muse m'a avertie
que chanter sans savoir
chanter me coûterait une langue
« Je vais maintenant te couper la langue
pour que tu apprennes à chanter »
ma Muse est cruelle
mais je n'en connais pas d'autre.
________________

Gisèle Vienne
Le jeu des marionnettes (2023)
...

Quando as irmãs no Carnaval…


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Quando as irmãs no Carnaval…
Quand ses soeurs lors du Carnaval…


Quando as irmãs no Carnaval
(sobretudo no Carnaval)
iam a bailes
e ela ficava em casa
porque não a tinham convidado
escrevia no diário
"a verdadeira vida estás no bailes de Carnaval"
a que as minhas irmãs vão
e quando uma noite num baile de Carnaval
a que as irmãs pediram que fosse
mascarada de órfã
ela ficou sentada entre um espelho e um reposteiro
a ver as irmãs dançar
pensou
quem me dera estar no meu quarto
a escrever no meu diário
“perdi o hábito de escrever no meu diário”
“gostava de dançar”
Quand ses sœurs lors du Carnaval
(surtout lors du Carnaval)
allaient danser
et qu'elle restait à la maison
n'ayant pas été invitée
elle écrivait dans son journal
« la vraie vie est au bal du Carnaval »
là où vont mes sœurs
et une nuit au bal du Carnaval
où ses sœurs l'avaient priée de
se déguiser en orpheline
elle était restée assise entre le miroir et le rideau
à regarder ses sœurs danser
elle pensa
comme j'aimerais être dans ma chambre
pour écrire sur mon journal
« j'ai perdu l'habitude d'écrire dans mon journal »
« j'adore aller danser »
________________

Federico Zandomeneghi
Jeune femme en train d'écrire (~ 1910)
...

Dansar


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Dansar
Danser


Desde que comecei a dansar escrevo dansar com s
como a Sophia. Danso na minha cozinha descalça.
Danso sozinha para os gatos. Gosto de dansar sem música
o tempo que a ampulheta do meu Avô Raul mede:
10 minutos. Posso virar a ampulheta ao contrário e
dansar mais 10 minutos. Posso dansar assim até o infinito.
Tenho diabetes tipo 2, devo dansar por dia 30 minutos.
Também ponho a caixa de música a tocar e danso.
É a caixa de música que minha mãe me trouxe do
aeroporto de Frankfurt, no final dos anos 60, quando
voltou de um congresso de Botânica em Darmstadt.
Esta caixa de música é um abeto com um casamento
de passarinhos à volta. É cor-de-rosa e verde. Há um
romance de Stendhal que se chama Le rose et vert.
Ainda não li. Mas tenho o livro. Posso ler.
Gosto de pensar nessas coisas enquanto danso. Enquanto
danso, penso. Penso e giro. De girar e de gerir. Enquanto
danso, raciocino e raciocino melhor. Enquanto danso,
rezo pela paz. Enquanto danso, descanso. O meu
pâncreas melhora. Só coisas boas. Tenho uma cassette
de rock jugoslavo que a minha intérprete em Sarajevo,
a Amra, gravou para mim. Estive em Saravejo em Maio de 1991 num encontro de poetas. Também danso rock.
Dansar é leve e intenso como diz a Tereza Amado.
Depuis que je danse, j'écris danser avec un s comme
Sophia. Je danse pieds nus dans ma cuisine. Seule,
je danse avec mes chats. J'aime danser sans musique pour
la durée du sablier de mon grand-père Raoul soit :
10 minutes. Je peux retourner le sablier et continuer de
danser encore 10 minutes. Je peux danser ainsi à l'infini.
J'ai un diabète de type 2 ; je devrais danser 30 minutes
par jour. Aussi je mets la boîte à musique et je danse.
C'est la boîte à musique que ma mère m'a rapportée de
l'aéroport de Francfort à la fin des années 60, à son
retour d'un congrès de botanique à Darmstadt. Sur cette
boîte à musique est représenté un sapin où niche un
couple d'oiseaux. Elle est de la couleur des roses, et verte.
Il y a un roman de Stendhal intitulé Le rose et le vert.
Je ne l'ai pas encore lu. Mais j'ai le livre. Je pourrais le lire.
J'aime y penser lorsque je danse. Et pendant que je danse,
je pense. Je pense et je tournoie. Je gire et je régis. En
dansant, je raisonne, et raisonne mieux. En dansant, je prie
pour la paix. En dansant, je me défatique. Mon pancréas
se porte mieux. C'est une bonne chose. J'ai une cassette
de rock yougoslave que mon interprète à Sarajevo, Amra,
a enregistrée pour moi. J'étais à Sarajevo en mai 1991,
à une rencontre de poètes. Je danse aussi du rock. Danser
est à la fois léger et intense, comme le dit Tereza Amado.
________________

Ernst Ludwig Kirchner
Ballerine (1914)
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Colares


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Colares
Colares


Em Colares, vi um bulldog branco anão em
em cima de uma coluna branca no jardim de uma
vivenda. É a minha recordação mais antiga. É es-
tranha. Parece inventada. Mas não é.

Fui com minha avó materna no eléctro da
Praia das Maçãs a Sintra. Tudo isto é muito prous-
tiano, é claro.

Quando era muito criança, passava alguns
dias de Verão numa pensão em Colares com a
minha família. Iam os meus pais, a minha avó
materna e irmã da minha avó materna.
Na quinta da pensão, vi uma porca deitada no
chão a dar de mamar a muitos leitõeszinhos. Adorei.

Em Colares, vi no céu o rasto de um avião a
jacto. Pensei que era um raio que ia cair em Lisboa
em cima de um armário de que gostava muito.
A minha mãe disse-me que não era assim. Há um
verso de Rimbaud que me lembra muito esta visão
da minha infância mas agora não encontro.

Há cinquenta anos, vi maçãs na Praia das
Maçãs trazidas por um riacho ou talvez seja con-
fusão minha.

Lembro-me de andar a passear à noite com os
meus pais em Colares pela estrada. A minha mãe
dizia-me: «Olha, um pirilampo.» Acho que nunca
vi nenhum. Ainda posso ver.

Ia muitas vezes a Sintra visitar o palácio da vila.
O cicerone já me conhecia. Dizia que eu gostava
mais de visitar o palácio do que de fazer covinhas
na praia. Não era assim. Gostar gostar era da Praia
Grande. Fui lá uma vez com minha prima Vera.
Fizemos um castelo com um fosso.
À Colares, j'ai vu un bouledogue blanc nain perché
sur une colonne blanche dans un jardin d'une
résidence. C'est mon plus ancien souvenir. C'est
étrange. On dirait une invention. Mais non, c'est vrai.

J'ai pris le tramway avec ma grand-mère maternelle
de Praia das Maçãs à Sintra. Tout cela est très proustien,
bien sûr.

Quand j'étais toute petite, j'ai passé quelques jours
d'été dans une pension à Colares avec ma famille.
Mes parents, ma grand-mère maternelle et la sœur
de ma grand-mère maternelle étaient là. À la ferme
de la pension, j'ai vu une truie couchée par terre,
allaitant ses nombreux porcelets. J'ai adoré.

À Colares, j'ai vu dans le ciel la traînée d'un avion à
réaction. J'ai cru que la foudre avait frapper Lisbonne
là au-dessus de l'armoire que j'aimais beaucoup. Ma
mère m'a dit que ce n'était pas du tout ça. Il y a un vers
de Rimbaud qui me rappelle beaucoup cette vision
de mon enfance, mais je n'arrive pas à le retrouver.

Il y a cinquante ans, j'ai vu des pommes sur Praia das
Maçãs, charriées par un ruisseau, ou peut-être est-ce
mon imagination.

Je me souviens de nos promenades nocturnes avec
mes parents à Colares, le long de la route. Ma mère
me disait : « Regarde, une luciole ! » Je crois que je
n'en ai jamais vu. Pourtant, je les vois encore.

J'allais bien souvent à Sintra visiter le palais national.
Le guide qui me connaissait de longue date, disait que
je préférais visiter le palais plutôt que faire des pâtés
sur la plage. Ce n'était pas vrai. J'aimais surtout Praia
Grande. J'y suis allée une fois avec ma cousine Vera.
Nous avons construit un château avec des douves.
________________

Alexis Rockman
La métairie (2000)
...

45 Anos


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45 Anos
45 ans


É tempo
de regressar
a casa

A poesia
não está
na rua
Il est temps
de retourner
à la maison

La poésie
n'est plus
dans la rue
________________

John William Waterhouse
Douce farniente (1879)
...

21 Anos


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21 Anos
21 ans


Os meus cavalos
espantaram-se

Como o Hipólito
da tragédia grega
bocados de mim
pendem
dos arbustos
Mes chevaux
sont effrayés

Comme dans l'Hippolyte
de la tragédie grecque
des lambeaux de moi
sont pendus
aux arbustes
________________

Antonio Ligabue
Chevaux effrayés par la tempête (1957)
...

A noite demora-se…



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A noite demora-se…
La nuit s’attarde…


A noite demora-se a passear
Pelas figuras que a povoam:
O orvalho da nostalgia,
Uma melancolia,
Uma tristeza antiquíssima
Que sobe aos olhos.
Pelas ruas, pelo silêncio,
Algo secreto rege brumas
E amplia os ângulos da sombra.
La nuit s'attarde et se promène
Parmi les silhouettes qui la peuplent :
Un baume nostalgique,
Une mélancolie,
Une tristesse très ancienne
Monte jusqu'aux yeux.
Par les rues, à travers le silence,
L'élément d'un secret régit les brumes,
Et accentue les angles de l'ombre.
________________

Alphonse Osbert
Les chants de la nuit (1896)
...

É um quadro de Edward Hopper…


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César a César (2003) »»
 
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É um quadro de Edward Hopper…
C'est un tableau d'Edward Hopper…


É um
quadro
de Edward Hopper
de 1924
chama-se
“New York pavements”
mostra
uma freira
a empurrar
um carrinho de bebé
contra o vento
pelas ruas
pelos passeios
de Nova Iorque
o véu
do hábito
da freira
esvoaça

Que freira
desalmada!
comenta
uma amiga

Este
quadro
de Edward Hopper
que tenho
em postal
puxa-me
ou empurra-me
a alma
C'est un
tableau
d'Edward Hopper
de 1924
intitulé
« New York pavements »
qui montre
une bonne sœur
poussant
un landau bousculé
par le vent
à travers les rues
sur les trottoirs
de New York
avec la cornette
de son habit
de nonne
qui s'envole

Cette bonne sœur
est sans âme !
commente
une amie

Ce
tableau
d'Edward Hopper
que je possède
en carte postale
me touche
et bouscule mon
âme
________________

Edward Hopper
Scène de rue à New York (1924)
...

Louvor do lixo


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A mulher-a-dias (2002) »»
 
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Louvor do lixo
Louange du dechet


  para a Amra Alirejsovic
  (quem não viu Sevilha não viu maravilha)

É preciso desentropiar
a casa
todos os dias
para adiar o Kaos
a poetisa é a mulher-a-dias
arruma o poema
como arruma a casa
que o terramoto ameaça
a entropia de cada dia
nos dai hoje
o pó e o amor
como o poema
são feitos
no dia a dia
o pão come-se
ou deita-se fora
embrulhado
(uma pomba
pode visitar o lixo)
o poema desentropia
o pó deposita-se no poema
o poema cantava o amor
graças ao amor
e ao poema
o puzzle que eu era
resolveu-se
mas é preciso agradecer o pó
o pó que torna o livro
ilegível como o tigre
o amor não se gasta
os livros sim
a mesa cai
à passagem do cão
e o puzzle fica por fazer
no chão
  pour Amra Alirejsovic
  (qui n'a pas vu Séville n'a pas vu la merveille)

Il est nécessaire de désentropiser
la maison
chaque jour
pour différer le chaos
la poétesse est la femme de ménage
elle arrange le poème
comme on arrange une maison
que le tremblement de terre menace
l'entropie de chaque jour
nous donne l'aujourd'hui
la poussière et l'amour
comme le poème
sont faits
au jour le jour
le pain se mange
ou se jette encore
emballé
(une colombe
peut visiter la poubelle)
le poème désentropise
la poussière se dépose sur le poème
le poème a chanté l'amour
grâce à l'amour
et au poème
le puzzle que j'étais
a été résolue
mais il faut remercier la poussière
la poussière qui rend le livre
illisible comme le tigre
l'amour ne s'abîme pas
les livres, si
la table tombe
au passage du chien
et le puzzle reste inachevée
sur le sol
________________

John French Sloan
Linge au soleil sur le balcon (1940 env.)
...

Um figo


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Obra (2000) »»
 
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Um figo
Une figue


Deixou cair a fotografia
um desconhecido correu atrás dela
para lha entregar
ela recusou-se a pegar na fotografia
mas a senhora deixou cair isto
Eu não posso ter deixado cair isto
porque isto não é meu
não queria que ninguém
e sobretudo um desconhecido
suspeitasse que havia uma relação
entre ela e a fotografia
era como se tivesse deixado cair
um lenço cheio de sangue
porque era ela quem estava na fotografia
e nada nos pertence tanto como o sangue
por isso quando uma pessoa se pica num dedo
leva logo o dedo à boca para chupar o sangue
o desconhecido apercebeu-se disso
é um retrato da senhora
pode ser o retrato de alguém muito parecido comigo
mas não sou eu
o desconhecido por ser muito bondoso
não insistiu
e como sabia que os mendigos
não têm dinheiro para tirar fotografias
deu a fotografia a um mendigo
que lhe chamou um figo

(chamar-lhe um figo)
Elle laissa tomber la photographie
un inconnu derrière elle courut
pour la lui rendre
elle refusa de prendre la photographie
et la dame la laissa tomber
je n'ai pas pu la laisser tomber
puisqu'elle n'est pas à moi
elle voulait que personne
ne puisse et surtout un inconnu
soupçonner une relation
entre elle et la photographie
c'était comme si elle avait laissé tomber
un mouchoir plein de sang
car c'était elle qui était sur la photographie
et rien ne nous appartient autant que le sang
c'est pourquoi lorsque l'on se pique le doigt
on le porte aussitôt à sa bouche pour sucer le sang
l'inconnu pris conscience qu'il s'agissait là
du portrait de cette dame
ce pourrait être aussi celui de quelqu'un qui me ressemble
mais ce n'est pas moi
l'inconnu qui était très poli
n'insista pas
et comme il savait que les mendiants
n'ont pas d'argent pour se faire photographier
il donna la photographie à un mendiant
ce qui lui rappela une « figue ».

(dont il se délecta avec plaisir)
________________

Lionel LeMoine FitzGerald
Femme avec appareil photographique en extérieur (1917)
...

Reconciliada com as memórias


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Reconciliada com as memórias
Réconciliée avec les souvenirs


Eu no espelho
colada com cola
mais bela
do que dantes
como o prato Zen
que tem as fracturas
sublinhadas
com ouro
obra da fortuna
má e boa
obra da falta de afecto
e do afecto
Narciso e anti-Narciso
viver para crer
Moi devant le miroir
fardée de fards
mais plus belle
qu'avant
comme un plat Zen
ayant de ces fractures
soulignées
à l'or fin
œuvre de fortune
bonne ou mauvaise
œuvre d'un manque d'affection
et d'un trop d'affections
Narcisse et anti-Narcisse
être en vie pour créer
________________

Naoko Fukumaru
Magie intemporelle (art kintsugi - réparation à l'or) (2023)
...

Nuage des auteurs (et quelques oeuvres)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant'Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (38) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (39) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (112) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eucanaã Ferraz (43) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (43) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (41) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (39) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (31) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (32) Nuno Rocha Morais (547) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poèmes inédits (354) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (28) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (32) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)