Evolução


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Adalgisa Nery »»
 
Do Fim ao Princípio (2022) »»
 
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Evolução
Évolution


Depois da vida outras mortes viverão
Trazendo o pólen dos silêncios insepultos
Nos ventos desatados pelos prantos.
Depois do amor outros cansaços se levantarão
Marcando as carnes gretadas pelo tédio
Na aparência de satisfação.
Depois da virgindade outros mercados surgirão
Vendendo os corpos fecundados
Sob o prazer, o asco e a exaustão.
Depois dos túmulos ficará o pó dos ossos
Cobrindo as imagens mutiladas
Pela consciência insone dos enfermos.
Depois da colheita outros frutos apodrecerão.
Outros rebanhos fugirão das pestes
E novas águas brotarão do solo novo
Removendo os universos tombados.
Depois do sono agitado da memória
Outras lembranças vestirão outros sentidos
Com o manto insistente do remorso
E com a palavra fatal da solidão.
Depois da invasão da alma outros massacres se
 repetirão
Em destinos de sangue e maldição
Cultivados em rancores dormidos.
Depois da morte outras vidas surgirão
Carregando consciências em angústia
Corpos de amores saturados
Olhos vazados em dores ancestrais
Vencendo os múltiplos limites do tempo
Que levam aos abismos das mortes reais.
Depois do vácuo
Outras vidas mortas nascerão.
Après cette vie, d'autres morts vivront,
Portant le pollen sans sépulture des silences
Dans les vents délivrés par les larmes.
Après l'amour, d'autres lassitudes viendront,
Marquant les chairs crevassées d'ennui
Sous une apparence de satisfaction.
Après la virginité, d'autres marchés surgiront,
Vendant les corps fécondés
Par le dégoût, le plaisir et l'épuisement.
Après les tombes, seule la poussière des ossements
Recouvrira les images mutilées
Par la conscience insomniaque des malades.
Après la moisson, d'autres fruits pourriront.
D'autres troupeaux fuiront les fléaux
Et des eaux nouvelles jailliront d'un sol nouveau
Emportant les univers déchus.
Après le sommeil agité de la mémoire
D'autres réminiscences vêtiront d'autres sens
Du manteau insistant du remords
Et de la parole fatale des solitudes.
Après l'invasion de l'âme, il y aura d'autres massacres
  qui se répéteront
En destins de sang et de malédiction
Cultivés par des rancœurs latentes.
Après la mort, d'autres vies surgiront
Porteuses de consciences tourmentées
De corps imprégnés d'amour
D'yeux évidés aux douleurs ancestrales
Ayant vaincu les limites d'un temps multiple
Menant aux abîmes de la mort véritable.
Après le vide,
D'autres vies mortes naîtront.
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Roue de la Vie ou Roue du Samsara
Monastère de Kopan, Katmandou (Népal)
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Do fim para o princípio


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Adalgisa Nery »»
 
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Do fim para o princípio
De la fin à l'origine


Nada mais acontecerá
Porque tudo já aconteceu.
Amanhã é ontem e ontem é hoje.
Meu nascimento, minha vida,
Minha morte e meu julgamento
Já chegaram dentro de mim
Antes de chegar para todos.
Sei que ninguém mais nascerá,
Se alguém nasceu foi um instante
E os que vivem foram abafados
Antes de acabar como cosmos, como universo.
Em tudo e para tudo
o mundo já começou por acabar dentro de mim mesma.
Espero o princípio, porque o fim
Já está comigo desde a minha formação.
Plus rien n'arrivera
Puisque tout est déjà arrivé.
Demain sera comme hier et aujourd'hui.
Ma naissance, ma vie,
Ma mort et mon jugement
Arrivent toujours en moi
Avant d'arriver aux autres.
Plus personne ne naîtra, je le sais ;
Si quelqu'un nait, ce n'est qu'un instant
Et même ceux qui vivent déjà s'éteignent
Avant que le cosmos, avant que l'univers ne finisse.
En tout et pour tous,
Le monde a déjà commencé par finir en moi-même..
J'attends l'origine, puisque la fin
Est toujours en moi depuis ma conception.
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Roberto Crippa
Spirales (1952-1953)
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Distâncias perdidas


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Distâncias perdidas
Lointains perdus


Iluminados por luz que nasce na distância
E largados à vontade sem destino
Cavalgamos campos e relvados
Vazios de montes ou vales aguados.
A colheita de horizontes é farta
Mas inatingível para a fome de repouso.
No céu os mares sonolentos ou raivosos,
Na terra, do canto morto e irrevelado
Nascem braços como espigas ressecadas,
Na paisagem
Exuberante cresce a solidão
Sem deixar rastros da nossa passagem.
Éclairés par une lumière venue de loin
Et livrés sans but à nous-mêmes
nous chevauchons prairies et champs.
Pas la moindre colline ou vallées humides.
Nombre de lignes à l'horizon s'offrent à nous,
Mais restent inaccessibles à notre soif de repos.
Les mers sous le ciel sont paisibles ou furieuses ;
Sur la terre, d'une région morte et irrévélée
Se lèvent des bras, épis de blé desséchés ;
Dans le paysage
Exubérant, la solitude grandit
Sans garder traces de notre passage.
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Félix Valloton
Coucher de soleil (1911)
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Vivência


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Adalgisa Nery »»
 
Erosão (1973) »»
 
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Vivência
Existence


Começamos a viver
Quando saímos do sono da existência,
Quando as distâncias se alongam nas partículas
  do corpo.

Começamos a viver
Quando confusos e sem consolo
Não sentimos os traços do irmão perdido.
Quando antes da força
Surge a sombra do insignificante.
Quando o sono é transformado em sonhos superados,
Quando o existir não é contradição.

Começamos a viver
Quando percebemos a mutação das células,
Quando fugimos de dentro de nós mesmos
E escondemos a nossa carne num caramujo oco.
Quando o espírito falsificado esquece
As tortuosas estradas
E quando deixamos de ser escaravelhos laboriosos.

Começamos a viver
Quando velamos além do sono
A vida irreal dos nossos passos.
Nous commençons à vivre
Lorsque nous sortons du sommeil de l'existence,
Lorsque les distances s'allongent entre les particules
  du corps.

Nous commençons à vivre
Lorsque, confus et inconsolables,
Nous ne sentons plus les traces de notre frère disparu.
Lorsque avant la force
Surgit l'ombre de l'insignifiant.
Lorsque le sommeil se transforme en rêves surmontés,
Lorsque exister n'est plus contradictoire..

Nous commençons à vivre
Lorsque nous percevons la mutation des cellules,
Lorsque nous fuyons au-dedans de nous-mêmes
Et cachons notre chair dans une coquille vide.
Lorsque l'esprit falsifié oublie
Les chemins tortueux
Et lorsque nous cessons d'être des scarabées laborieux.

Nous commençons à vivre
Lorsque, au-delà du sommeil, nous réveillons
La vie irréelle de nos pas.
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Kazuko Shiihashi
Colline bleue cobalt (2022)
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Teoria de zero


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Erosão (1973) »»
 
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Teoria de zero
Théorie du zéro


O desejo absorve dois corpos
E por instantes funde-os na unidade.
Sentimentos com a força das marés vazantes
Baixam sobre dois corpos
Deixando às próximas marés enchentes
Dois corpos abandonados, flutuando
No oceano aberto.
Le désir absorbe deux corps
Et par instants les fusionne en un seul.
Des émotions pareilles à la force d'un reflux
Emportent les deux corps
Laissant pour les marées prochaines
Deux corps abandonnés, flottant
À la surface de l'océan.
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Lorenzo Mattotti
Dans l'eau (2021)
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