Rotina de todos nós


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Rotina de todos nós
Notre quotidien à tous


Ser fragmento do transitório,
Analisar-se no mistério do demudado,
Saber perder o que jamais foi possuído
Mas desejado,
Esperar o que nunca foi criado,
Cravar-se em raízes já extintas,
Conduzir-se por idéias não nascidas,
Ver grandezas na própria fraqueza,
Proclamar o amor sobre o desamor,
Ser pureza ao lado da degradação
É existir no que não tem sentido,
É esquecer o que não foi pensado,
É caminhar sem deixar traços,
É ser pássaro sem asas
É tentar sair do chão para os espaços.
Être un fragment de l'éphémère,
S'analyser dans le mystère du changement,
Savoir perdre ce qui n'a jamais été possédé
Mais seulement désiré,
Attendre ce qui jamais ne fut créé,
S'enfoncer en des racines déjà éteintes,
Être porté par des idées encore à naître,
Voir de la grandeur dans sa propre faiblesse,
Proclamer l'amour contre le désamour,
Être la pureté aux côtés de la dégradation,
Être en vie dans ce qui n'a pas de sens,
Être et oublier ce qui n'a pu être pensé,
Être et marcher sans laisser de traces,
Être oiseau et être sans ailes,
Être et quitter le sol pour les grands espaces.
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Ismael Nery
Composition surréaliste (1929)
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Repetição


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Repetição
Répétition


No abrir de cada dia
Está presente a sombra de todas as noites.
Mãos em desespero esvoaçam
Tentando atingir a fímbria da vida.
Lâmpadas reabastecidas
Na esperança da vinda do Grande Esperado.
A carne é devolvida ao pó
Enquanto a memória da nossa infância
Se apaga aos poucos na memória da infância dos
 nossos filhos
Diluída na dos nossos netos.
Memórias sem dono
Substituídas pelos tentáculos do ventre materno
Para a lenta e angustiante viagem para o exílio.
Dans l'ouvert de chaque jour
Est présente l'ombre de toutes les nuits.
Des mains tremblent, désespérées
Cherchent à atteindre les fibres de la vie.
Des lampes se renflamment
Dans l'espoir de la venue de la Grande Espérance.
La chair est redevenue poussière
Tandis que le souvenir de notre enfance
S'épuise peu à peu dans la mémoire de l'enfance
  de nos fils
Puis se dilue dans celle de nos petits-enfants.
Souvenirs sans maitre
Remplacés par les tentacules du ventre maternel
Pour le lent et angoissant voyage vers l'exil.
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Vincent van Gogh
L'Arlésienne (Portrait de Mme Ginoux) (1890)
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Procissão das bestas


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Procissão das bestas
Procession des bêtes


  também para Dante Milano

Mundos de conflitos que o silêncio engole,
Sombras lentas e pesadas
Reduzem os olhos a bagaços.
Ruminações da memória
No branco da vida extenuada
Na paisagem sem ninguém.
Nos gritos soltos
Sem a devolução do eco.

No oco das mãos
Ausente o suor de outra mão,
Formas amadas levadas pelo vento
Às nuvens que condensam o cansaço da
 terra,
Canções da carne traduzidas na rosa,
Promessas de fé em cada espera,
Na palavra esquecida do próprio som,

Circunferência de fogo em labaredas
Consumindo a ternura no cansaço.
Imaturas searas de amor,
Morte nos ossos das jornadas sem motivo.

Fadiga anterior à união dos sexos
Decompostos na traição de análises mútuas,
Espreitando sadicamente dois corpos nus fundidos
 na derrota.

Lodo cobrindo pés, atolando ventres,
Transformando bocas em esgotos
Reduzindo o amor a ato
Que o silêncio engole
Como fétida flor da noite.
  pour Dante Milano, également

Mondes de conflits que le silence engloutit,
Des ombres lentes et lourdes
Réduisent les yeux à l'état de cendre.
Ruminations de la mémoire
Dans la blancheur d’une vie exténuée
Dans un paysage sans personne.
Dans les cris isolés
Sans la restitution de l'écho

Dans le creux des mains,
Absente est la sueur d’une autre main,
Formes aimées emportées par le vent
Jusqu'aux nuages qui condensent toute la fatigue
  de la terre,
Chants de la chair traduits en rose,
Promesses de foi en chaque espoir,
En la parole oublieuse de son propre son,

Circonférence du feu au milieu des flammes
Consumant la tendresse en fatigue.
Moissons d'amour immatures,
Mort au fond des os des journées sans raison.

Fatigue antérieure à l’union des sexes
Décomposés par la trahison des analyses mutuelles,
Observation sadique de deux corps nus fusionnés
  dans la défaite.

La boue recouvre les pieds, embrouille les ventres,
Transforme les bouches en égouts
Réduisant l’amour à un acte
Que le silence englouti
Pareil à la fleur fétide de la nuit.
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Franz von Stuck
La chasse sauvage (1889)
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Pré-morte


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Pré-morte
Prémort


  Para o poeta Dante Milano

O escuro ser profundo, coisa sobrenatural,
Vontade oculta sem objeto,
Pousado na brasa sem lume
Dos ímpetos à procura de um destino.
Companheiro de farsas, mensageiro de aflições,
Mão sustentando a máscara na face intata,
Fuga na palavra dissolvida
No vácuo da imagem esquecida,
Sobra que embala em acalanto
De agonia em agonia,
O volume da tristeza e da alegria,
Nódoa que o desespero não apaga.
Tudo tão certo e tudo tão mal articulado,
Tudo tão fundido no abandono do querer,
Tão floresta sem saída, tão rachadura sem fundo,
Tão treva preexistida
Na corrente de amarrados conjuntos
No conceito de vazios absolutos,
No escuro que não deu à luz.
Oh canção de secura cantada em silêncio!
Oh escuro ser profundo!
  Pour le poète Dante Milano

L’être obscur et profond, chose surnaturelle,
Volonté occulte sans objet,
Déposé sur la braise sans flamme
Des pulsions à la recherche d’un destin.
Compagnon de farces, messager d’afflictions,
Main soutenant le masque sur le visage intact,
Fuit dans la parole dissoute
Dans la vacuité de l’image oubliée,
Débris qui balance et nous berce
D’agonie en agonie,
Somme de tristesse et de joie,
Souillure que le désespoir n’efface pas.
Tout est si sûr et tout est si mal articulé,
Tout est si fondu dans l’abandon du désir,
Mais aussi forêt sans issue, aussi blessure sans fond,
Aussi ténèbre préexistante
Dans le débordement des attaches conjointes
Par le concept du vide absolu,
Par l’obscurité qui n'a pas donné sa lumière.
Ô chant d’une aridité chantée en silence !
Ô être obscur et profond !
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Edvard Munch
L'odeur de la mort (1895)
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Patrimônio


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Patrimônio
Patrimoine


Pesam nos meus ossos
Os meus pensamentos,
Choram nos meus olhos
As visões neles crescidas,
Soluçam no torpor das minhas carnes
Ancestrais desalentos.

Sangram os meus pés
Na inútil andança
Da imaginação liberta,
Pulveriza o meu espírito
A solidão do suicida ignorado
E cresce assustadoramente dentro de mim
A calmaria que precede o fim.
Sur mes os pèsent
Le poids de mes pensées,
Mes yeux pleurent
Où grandissent des visions,
Dans la torpeur de ma chair sanglote
Un désespoir ancestral

Mes pieds saignent
Dans l'errance inutile
D'une imagination libérée,
Elle pulvérise mon esprit
La solitude du suicide ignoré
Elle progresse en moi de façon effrayante
Accalmie qui précède la fin.
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Julia Vengiel
Le calme avant la tempête (2024)
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