Olhamo-nos nos olhos pela internet


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Olhamo-nos nos olhos pela internet
Nous nous regardons à travers internet


Eu transmito-te este domingo à tarde,
a voz do vizinho através da parede.

Tu transmites-me a distância que existe
depois do que consigo ver pela janela.

Durante a noite mudou a hora e, no entanto,
continuamos no tempo de ontem.

Como é raro este domingo, não podemos
garantir que amanhã seja segunda-feira.
 
O futuro perdeu-se no calendário, existe
depois do que conseguimos ver pela janela.
 
O futuro diz alguma coisa através da parede,
mas não entendemos as palavras.
 
Lavamos as mãos para evitar certas palavras.
 
E, mesmo assim, neste tempo raro, repara:
tu e eu estamos juntos neste verso.
 
O poema é como uma casa, tem paredes
e janelas, é habitado pelo presente.
 
Olhamo-nos nos olhos pela internet,
estamos verdadeiramente aqui.
 
O poema é como uma casa,
e a casa protege-nos.
Je te transmets en ce dimanche soir
la voix du voisin à travers la paroi.

Tu me transmets la distance qui existe
au-delà de ce que je vois par la fenêtre.

Durant la nuit l'heure a changé, pourtant
nous restons avec le temps d'hier.

Comme il est rare ce dimanche, nous ne
pouvons garantir que demain sera un lundi.

L'avenir se perd dans le calendrier ; il existe
au-delà de ce que nous voyons par la fenêtre.

L'avenir dit quelque chose à travers la paroi,
mais nous n'en comprenons pas les mots.

Lavons-nous les mains pour éviter certaines paroles.

Et même ainsi, en ce rare moment, observe :
toi et moi, nous sommes ensemble dans ce vers.

Le poème est comme une maison, il a des murs
et des fenêtres, il est habité par le présent.

Nous nous regardons à travers internet,
mais nous sommes véritablement là.

Le poème est comme une maison,
et la maison nous protège.
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August Natterer
Mes yeux au moment de l’apparition (1911-1913)
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Não há motivo para te importunar…


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Não há motivo para te importunar…
Il n'y a aucune raison de te déranger...


Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.
Il n'y a aucune raison de te déranger au milieu de la nuit,
il n'y a pas non plus de lait dans le frigidaire, ni de limite
fixée à la solitude domestique.

Tout disparaît. Rien ne disparaît. Tout disparaît avant
même d'être dit, et les poings fermés, tu veux dormir. Tu as
droit à une allocation de paix.

Si j'écris un poème, ce n'est pas une raison pour te
déranger. J'écris beaucoup de poèmes, et tu travailles
tôt le matin.

Tout le monde sait que la nuit est longue. Je n'ai pas le
droit de te téléphoner pour te le dire, pourtant cette
évidence me tue en ce moment.

Et je meurs, mais sans mourir. Si j'étais mort, tu aurais dit :
pourquoi ne m'a-t-il pas appelée ? Et si je t'appelle, tu diras :
sais-tu quelle heure il est ?

Ou tu ne répondras pas. Et je resterais ici. Avec cette nuit
encore plus longue, avec mon insomnie, avec des mots
se détachant de mes cauchemars.
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Arman
Téléphone (1974)
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Fotografia do Rio de Janeiro


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Fotografia do Rio de Janeiro
Photographie de Rio de Janeiro


Não esperes por mim, Rio de Janeiro. Tu nunca exististe
e eu nunca existi enquanto escutávamos relatos de futebol
nas nossas próprias vozes. Contigo, ficaram suspensas
todas as avaliações que fizemos da vida, todas as decisões.
Contigo, é a fome ou a sede. As tuas mãos seguram-me
os braços, Rio de Janeiro, porque querem ter a certeza
de que estou aqui. As tuas mãos deveriam saber mais,
Rio de Janeiro. Eu sou o fantasma único da tua luz.
Eu sou o invisível invisível. E é desde esse lugar nenhum
que te peço: não esperes por mim, Rio de Janeiro,
não esperes por mim.
N'attends rien de moi, Rio de Janeiro. Tu n'as jamais existé,
et je n'ai jamais existé, tandis que nous écoutions chacun de
notre côté les commentaires sur le football. Avec toi, toutes les
réflexions que nous faisions sur la vie, toutes nos décisions
ont été suspendues. Avec toi, c'est la faim ou la soif. Tes mains
retiennent mes bras, Rio de Janeiro, car elles veulent être
sûres que je suis bien là. Tes mains devraient en savoir plus,
Rio de Janeiro. Je suis le seul fantôme de ta lumière. Je suis
l'invisible invisible. Et c'est de ce lieu indéfini que je te fais
cette prière : n'attends rien de moi, Rio de Janeiro,
n'attends rien de moi.
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Candido Portinari
Football (1958)
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A partir de Empédocles



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Nuno Rocha Morais »»
 
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A partir de Empédocles
Sous le signe d'Empédocle


És tu, mas a tua alma percorre um ciclo
E é rapaz, donzela,
Planta, e ave, e peixe nas ondas,
Mas de ti nada se perde:
És sempre tu e serás tu,
E assim cumpres a mais alta lei.
C'est toi, mais ton âme parcourt un cycle,
Tu es garçon, puis fille,
Plante, ou oiseau ou poisson des ondes,
Mais rien de toi ne se perd :
Tu es toi-même et le seras toujours,
Ainsi tu respectes la loi suprême.
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Utagawa Hiroshige
Carpe (1830)
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Fotografia de Helsínquia


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Fotografia de Helsínquia
Photographie d'Helsinki


O tempo diz-me que Helsínquia é um sonho
que nunca conseguirei concretizar.
Helsínquia é um fósforo a arder-me na ponta dos dedos.
Porque não sabia, desperdicei Helsínquia,
disse-lhe frases sem nexo e disfarcei-me de incêndio.
Há noites em que vejo a imagem desfocada de Helsínquia.
Comandado por ela, atravesso avenidas geladas
e queimo todos os objectos em que toco.
Le temps me dit qu'Helsinki est un rêve
que je ne pourrai jamais réaliser
Helsinki est une allumette qui me brûle au bout des doigts.
Pour l'avoir ignorée, j'ai gaspillé Helsinki,
je lui ai dit des mots sans suite, et j'ai masqué ma flamme.
Il y a des nuits où je la vois floutée, l'image d'Helsinki.
Sous son emprise, je traverse des avenues glacées
et mets le feu à tout ce que je touche.
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Rembrandt
Patineur (env. 1639)
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