Vivência


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Adalgisa Nery »»
 
Erosão (1973) »»
 
Italien »»
«« précédent / Sommaire / suivant »»
________________


Vivência
Existence


Começamos a viver
Quando saímos do sono da existência,
Quando as distâncias se alongam nas partículas
  do corpo.

Começamos a viver
Quando confusos e sem consolo
Não sentimos os traços do irmão perdido.
Quando antes da força
Surge a sombra do insignificante.
Quando o sono é transformado em sonhos superados,
Quando o existir não é contradição.

Começamos a viver
Quando percebemos a mutação das células,
Quando fugimos de dentro de nós mesmos
E escondemos a nossa carne num caramujo oco.
Quando o espírito falsificado esquece
As tortuosas estradas
E quando deixamos de ser escaravelhos laboriosos.

Começamos a viver
Quando velamos além do sono
A vida irreal dos nossos passos.
Nous commençons à vivre
Lorsque nous sortons du sommeil de l'existence,
Lorsque les distances s'allongent entre les particules
  du corps.

Nous commençons à vivre
Lorsque, confus et inconsolables,
Nous ne sentons plus les traces de notre frère disparu.
Lorsque avant la force
Surgit l'ombre de l'insignifiant.
Lorsque le sommeil se transforme en rêves surmontés,
Lorsque exister n'est plus contradictoire..

Nous commençons à vivre
Lorsque nous percevons la mutation des cellules,
Lorsque nous fuyons au-dedans de nous-mêmes
Et cachons notre chair dans une coquille vide.
Lorsque l'esprit falsifié oublie
Les chemins tortueux
Et lorsque nous cessons d'être des scarabées laborieux.

Nous commençons à vivre
Lorsque, au-delà du sommeil, nous réveillons
La vie irréelle de nos pas.
________________

Kazuko Shiihashi
Colline bleue cobalt (2022)
...

Teoria de zero


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Adalgisa Nery »»
 
Erosão (1973) »»
 
Italien »»
«« précédent / Sommaire / suivant »»
________________


Teoria de zero
Théorie du zéro


O desejo absorve dois corpos
E por instantes funde-os na unidade.
Sentimentos com a força das marés vazantes
Baixam sobre dois corpos
Deixando às próximas marés enchentes
Dois corpos abandonados, flutuando
No oceano aberto.
Le désir absorbe deux corps
Et par instants les fusionne en un seul.
Des émotions pareilles à la force d'un reflux
Emportent les deux corps
Laissant pour les marées prochaines
Deux corps abandonnés, flottant
À la surface de l'océan.
________________

Lorenzo Mattotti
Dans l'eau (2021)
...

Toda a música…



Nom :
 
Recueil :
Source :
 
Autre traduction :
Nuno Rocha Morais »»
 
Poèmes inédits »»
nunorochamorais.blogspot.com (mai 2026) »»
 
Italien »»
«« précédent / Sommaire / suivant »»
________________


Toda a música…
Toute la musique…


Toda a música
Traz uma memória própria,
Sábia de quanto esquecemos.
O seu fluir cristaliza
Num breve fulgor.

Toda a música
Transplanta para nós
A memória de que ela é tempo,
Essa música que adormece, cumprida,
É a nossa reconciliação
Com o silêncio.
Toute la musique
Porte en elle une mémoire,
Qui sait combien nous avons oublié.
Son flot un instant
cristallise et fulgure.

Toute la musique
Transplante en nous
Le souvenir de ce qui en elle est temps.
Cette musique qui s'endort, comblée,
Est notre réconciliation
Avec le silence.
________________

Vassily Kandinsky
Peinture bleue (1924)
...

Rotina de todos nós


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Adalgisa Nery »»
 
Erosão (1973) »»
 
Italien »»
«« précédent / Sommaire / suivant »»
________________


Rotina de todos nós
Notre quotidien à tous


Ser fragmento do transitório,
Analisar-se no mistério do demudado,
Saber perder o que jamais foi possuído
Mas desejado,
Esperar o que nunca foi criado,
Cravar-se em raízes já extintas,
Conduzir-se por idéias não nascidas,
Ver grandezas na própria fraqueza,
Proclamar o amor sobre o desamor,
Ser pureza ao lado da degradação
É existir no que não tem sentido,
É esquecer o que não foi pensado,
É caminhar sem deixar traços,
É ser pássaro sem asas
É tentar sair do chão para os espaços.
Être un fragment de l'éphémère,
S'analyser dans le mystère du changement,
Savoir perdre ce qui n'a jamais été possédé
Mais seulement désiré,
Attendre ce qui jamais ne fut créé,
S'enfoncer en des racines déjà éteintes,
Être porté par des idées encore à naître,
Voir de la grandeur dans sa propre faiblesse,
Proclamer l'amour contre le désamour,
Être la pureté aux côtés de la dégradation,
Être en vie dans ce qui n'a pas de sens,
Être et oublier ce qui n'a pu être pensé,
Être et marcher sans laisser de traces,
Être oiseau et être sans ailes,
Être et quitter le sol pour les grands espaces.
________________

Ismael Nery
Composition surréaliste (1929)
...

Repetição


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Adalgisa Nery »»
 
Erosão (1973) »»
 
Italien »»
«« précédent / Sommaire / suivant »»
________________


Repetição
Répétition


No abrir de cada dia
Está presente a sombra de todas as noites.
Mãos em desespero esvoaçam
Tentando atingir a fímbria da vida.
Lâmpadas reabastecidas
Na esperança da vinda do Grande Esperado.
A carne é devolvida ao pó
Enquanto a memória da nossa infância
Se apaga aos poucos na memória da infância dos
 nossos filhos
Diluída na dos nossos netos.
Memórias sem dono
Substituídas pelos tentáculos do ventre materno
Para a lenta e angustiante viagem para o exílio.
Dans l'ouvert de chaque jour
Est présente l'ombre de toutes les nuits.
Des mains tremblent, désespérées
Cherchent à atteindre les fibres de la vie.
Des lampes se renflamment
Dans l'espoir de la venue de la Grande Espérance.
La chair est redevenue poussière
Tandis que le souvenir de notre enfance
S'épuise peu à peu dans la mémoire de l'enfance
  de nos fils
Puis se dilue dans celle de nos petits-enfants.
Souvenirs sans maitre
Remplacés par les tentacules du ventre maternel
Pour le lent et angoissant voyage vers l'exil.
________________

Vincent van Gogh
L'Arlésienne (Portrait de Mme Ginoux) (1890)
...

Nuage des auteurs (et quelques oeuvres)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (38) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant'Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (38) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (39) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (112) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eucanaã Ferraz (43) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (43) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (41) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (39) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (31) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (32) Nuno Rocha Morais (541) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poèmes inédits (348) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (28) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (32) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)