Escuro


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Erosão (1973) »»
 
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Escuro
Obscurité


Que estranho terreno inexplorado
Na área escura do meu cérebro
Impede o conhecimento de mim mesma?
Muralha intransponível
Que frustra o meu acordar
Para retroceder ao princípio do princípio
Das coisas irrepetidas.
Estranha área do escuro
Onde estaria o berço da luz única
Fechada em mão intocável,
Luz que explicaria a vida na escuridão, e
Não vedaria o despertar de mim mesma.
Que estranha área de trevas no meu cérebro
Impede o meu espírito de receber a luz divina?
Quel étrange territoire inexploré
Dans l'aire obscure de mon cerveau
M'empêche de me connaître moi-même ?
Mur infranchissable
Entravant mes accordailles
Qui me renvoie au principe du principe
Des choses irreproductibles.
Aire obscure et mystérieuse
Où reposerait le berceau d'une lumière unique
Intouchable, enfermée dans une main.
Lumière qui expliquerait la vie dans les ténèbres, et
Ne ferait pas obstacle à mon réveil.
Quelle aire étrange d'obscurité dans mon cerveau
empêche mon esprit de recevoir cette lumière divine ?
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Stella Levi (Getty Images)
Anxiété (2022)
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Aspiração


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Aspiração
Aspiration


Antes que vingue outra esperança
Quero as sombras do branco espesso.
Antes que mais uma insônia se cumpra
Quero o torpor no abismo indecifrável
Do espírito amortalhado.
Antes que o pensamento acorde
E descubra os espaços petrificados,
Quero narcotizar-me sem sonhos
E deitar-me no mundo sem sombras,
Sem palavras nem gestos.
Antes que alguma crença me recolha,
Antes que eu entenda o obscuro,
Antes que o sensível me assalte,
Antes que eu distinga na lonjura
A morte da estrela cintilante,
O êxtase da solidão vertical,
Quero ser coisa sem motivo
Entregue aos ventos sem destino.
Avant que ne m'assaille un autre espoir
Je veux des ombres d'un blanc opaque.
Avant l'inévitable retour de l'insomnie,
Je veux la torpeur de l'abîme indéchiffrable
De l'esprit en un suaire enseveli.
Avant que la pensée ne s'éveille
Et ne découvre ces espaces pétrifiés,
Je veux être anesthésiée sans rêves
Et couchée dans un monde sans ombres,
Sans paroles ni gestes.
Avant d'être prise par une foi quelconque,
Avant que je ne comprenne l'obscur,
Avant que la sensibilité ne me blesse,
Avant de pouvoir distinguer si lointaine
La mort de l'étoile qui scintille,
L'extase de la solitude verticale,
Je veux être une chose sans raison,
Livrée aux vents, désorientée.
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Will Barnet
Femme devant la mer (1972)
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Abandono


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Abandono
Abandon


A exaustão faminta
Procura elementos ainda vivos no meu ser
Talvez guardados em escuros vácuos
Que carrego sem saber.
Alimenta-se do sopro das imagens
Desenhadas pela minha imaginação
Pelo tato dos meus sentimentos,
Pelo pânico do desconhecido.
Aparece como febre constante dilatando as minhas carnes
Descoloridas e sem sabor de vida.
A exaustão sobe pelos meus pés,
Cobre os meus gestos incipientes,
Prende a minha língua,
Suga o meu cérebro, ninho de aranhas em fogo,
Pousa no meu cabelo como morcego.
Exaustão que funga o ar, que saqueia o meu silêncio,
Último repouso nos meus vácuos devassados.
Une soif insatiable
Cherche les éléments peut-être encore vivants,
Gardés dans les obscures anfractuosités
Que je porte en mon être sans le savoir.
Elle se nourrit du souffle des images
Que mon imagination a inventé
Au contact de mes sentiments,
Épouvantée par l'inconnu.
Elle se manifeste, fièvre assidue dilatant mes chairs
Décolorées et privées de toute saveur.
Elle remonte, épuisée, depuis mes pieds,
Étouffe mes gestes naissants,
Paralyse ma langue,
Aspire mon cerveau, comme un nid d'araignées en feu,
Et, chauve-souris, se pose sur mes cheveux.
Une faim reniflant l'air, saccageant mon silence,
Mon ultime repos en mes anfractuosités profanés.
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Felix Vallotton
Femme couchée dormant (1899)
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Eis uma sede súbita de poemas…



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Nuno Rocha Morais »»
 
Poèmes inédits »»
nunorochamorais.blogspot.com (mai 2026) »»
 
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Eis uma sede súbita de poemas…
Voici une soif soudaine de poésies...


Eis uma sede súbita de poemas –
Sede, não um pião vindo dos astros,
Não um raio, divino de vontade.
Percorro as sarças de palavras crepusculares,
Onde as espigas estão nuas e a terra
Exausta de cores.
Mas eis um pórtico
Onde as águas correm
Eis uma espiga que, de vários ângulos,
Brilha em fulvos diversos.
Eis o reflexo ilegível, eis o poema,
Refracção do dizer, momento
Em que, realmente, o poeta já não diz nada.
O poema é o incerto despertar
Do caminho na bruma,
Sem partitura ou norte,
A distância é ilegível,
Olhando para trás, a estrada
Antiga e fluente dorme,
Cansada do rumo e do tempo.
Voici une soif soudaine de poésies –
Une soif, non une lubie venue des astres,
Non l'éclair d'une volonté divine.
Je franchis les ronces de paroles crépusculaires,
Où les épis de blé sont nus et la terre
Épuisée de couleurs.
Mais voici un portique
D'où les eaux coulent,
Voici un épi de blé qui, sous des angles divers,
Brille de nuances fauves.
Voici le reflet illisible, voici le poème,
Réfraction du dire, moment
Où le poète, en réalité, ne dit plus rien.
Le poème est l'éveil incertain
Du chemin dans la brume,
Sans partition, et sans nord,
La distance est illisible,
En regardant derrière soi, la route
Ancestrale et fluide s'endort,
Lasse de son cours et du temps.
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Dexter Dalwood
Miroir de la nuit (2012)
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A essência imutável


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Adalgisa Nery »»
 
Erosão (1973) »»
 
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A essência imutável
L'essence immuable


Entre a estrela e o átomo
A matéria viva estabelece o traço original.
A fotossíntese realiza a assimilação
Da energia solar do homem,
Mecanismo-alimento da força biológica
Existente no grão de luz que ronda o corpo inanimado
Vindo da semente viajante dos ventos programados.
Cubos-pedra lançam o elétron
De uma órbita a outra dos planetas tranquilos
E voltam à origem do cansaço.
Desencadeia-se o calor que mata,
O mecanismo complica-se,
O elétron muda de órbita
E a sua volta é seguida de reações em cadeia
Para aniquilar o homem caminhante
Das estradas indecisas.
As múltiplas diferenças de forças
Convocam a origem da vida em cada rumo da poeira
 ardida
Enquanto a procissão do grande mecanismo
Mostra em todos os níveis, em todas as gamas da
 existência,
A sua ativa regulagem
Que ainda é mistério para o homem aniquilado
Pela surpresa do nada saber
Além das suas carnes esfarrapadas pela infinita agonia.
Entre l'étoile et l'atome
La matière vivante s'établit sur une ligne originale.
La photosynthèse réalise l'assimilation
De l'énergie solaire par l'homme,
Mécanisme nourricier de la force biologique
Qui vit dans le grain de lumière autour du corps inanimé,
Venu de la semence pérégrine des vents programmés.
Des cubes de pierre propulsent l'électron
D'une orbite à l'autre vers des planètes tranquilles
et le ramènent à l'origine de sa lassitude.
Une chaleur mortelle se déclenche,
Le mécanisme se complexifie,
L'électron change d'orbite
Et son retour est suivi de réactions en chaîne
qui anéantissent l'homme qui chemine
sur des routes incertaines.
Les multiples différences de forces convoquent
L'origine de la vie dans chaque direction d'une ardente
  poussière
Tandis que le cortège du grand mécanisme
Montre, à tous les niveaux, dur toutes les gammes de
  l'existence,
Sa régulation active
qui demeure encore un mystère pour l'homme anéanti
Par la surprise de ne rien connaître
Au-delà de sa chair mise en loques par une agonie infinie.
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Paul Klee
Les limites de la raison (1927)
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Nuage des auteurs (et quelques oeuvres)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (27) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant'Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (38) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (39) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (112) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eucanaã Ferraz (43) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (43) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (41) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (39) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (31) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (32) Nuno Rocha Morais (539) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poèmes inédits (346) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (28) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sophia de Mello Breyner Andresen (32) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)