Os cegos


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Os cegos
Les aveugles


Não vemos o mostrador do Tempo
Assim como não vemos
Uma forma de vida fundir-se noutra.
Não vemos a vida caminhar sobre nossa origem
Construindo muralhas contra nós mesmos.
Não ouvimos o cântico de guerra
Festejando nossos fracassos
Registrados nas páginas do pensamento.

A cada hora vemos e sentimos menos
O mostrador do Tempo.
Somos mutações desordenadas
Multiplicando-se nos porões fétidos
De galeras negras, abandonadas.
Nous ne voyons pas la montre du Temps
Ni même la fusion
D'une forme de vie en une autre.
Nous ne voyons pas la vie cheminer vers notre origine
Construisant des murs contre nous-mêmes.
Nous n'entendons pas le chant de guerre
Célébrant nos échecs
Inscrits dans les pages de nos pensées.

À chaque heure, nous sentons et voyons un peu
Moins la montre du Temps.
Nous sommes des mutations désordonnées
Se multipliant dans les cales fétides
De galères noires, abandonnées.
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William Turner
Stonehenge au crépuscule (1811)
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O fado deixa-nos…



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Nuno Rocha Morais »»
 
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O fado deixa-nos…
Le fado nous laisse…


O fado deixa-nos
Abandonados na praia,
As notas quebrando-nos os olhos,
Lágrimas pelos olhos adentro.
No céu, apaga-se a geografia dos astros,
Saudade súbita
De algo ainda próximo,
Mas é a saudade futura presente.
O fado desatando o coração,
O fado abrindo uma gaveta
Antiquíssima e poeirenta
Onde reencontramos um pouco de nós.
Le fado nous laisse
À l'abandon sur la plage,
Et ses notes se brisent contre nos yeux
Nos yeux qui se remplissent de larmes.
Dans le ciel, la géographie des étoiles s'efface
Avec le manque soudain
D'une chose toujours proche
Mais c'est un manque futur qui est présent.
Le fado nous défait le cœur,
Le fado ouvre en nous un tiroir
Très ancien et poussiéreux
Où se trouve encore un peu de nous-mêmes.
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Giorgio de Chirico
Les danseurs (1970)
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Mulher


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Mulher
Femme


Na face, a geografia da angústia,
Dos pânicos e das medrosas alegrias.
Cada ruga é um presságio.
E auréola da aflição constante
O esplendor dos cabelos brancos.

Uma só raiz para frutos diversos,
Uma só vida para destinos tão complexos,
Um só pranto para dores tão diversas.

O útero que gera o herói, o sábio, o poeta,
O santo, o miserável e o assassino.
Uma só raiz para frutos tão diversos!

O dom da paz em cada gesto
Cai como noites quietas
Sobre a alma em rancor,
Amor acima do amor.
Sur son visage, une géographie d'angoisses,
De paniques et de joies timorées.
Chaque ride est un présage.
Et l'auréole d'une affliction constante,
La splendeur des cheveux blancs.

Une seule racine pour des fruits si divers,
Une seule vie pour des destins si complexes,
Une seule larme pour des douleurs si variées.

La matrice qui engendre le héros, le sage, le poète,
Le saint, le misérable et l'assassin.
Une seule racine pour des fruits si divers !

Le don de la paix en chaque geste
Tombe comme des nuits paisibles
Sur l'âme rancunière,
L'amour au-delà de l'amour.
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Pablo Picasso
Mère et enfant au fichu (1903)
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Metamorfose


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Metamorfose
Métamorphose


No combate entre o gelo e o fogo
A vida universal desdobra-se em ciclos
No espaço de mil séculos.
Tomamos consciência do cósmico,
Tentamos ligações com o espírito há muito abatido
E a alma afunda em dimensões pulverizadas.
Dá-se a recuperação das espécies rejeitadas,
O achado do perdido não procurado.
Do implacável e do flamejante
O universo não está terminado.
Há mutações silenciosas em cada instante que soçobra
E que só percebemos da metamorfose de mil em
 mil séculos.

Somos casulos pendurados nas folhas de árvores
 sem nome,
Casulos à espera da metamorfose cíclica do tempo.
Dans la lutte entre la glace et le feu,
La vie universelle se déploie cyclique
en l'espace de mille siècles.
Nous avons pris conscience du cosmique,
essayant de renouer avec l'esprit vaincu depuis longtemps,
Et l'âme se noie en ses dimensions pulvérisées.
On voit renaître des espèces autrefois rejetées,
On retrouve de ce qui était perdu, inexploré.
Implacable et flamboyant
L'univers n'est pas encore achevé.
Des mutations silencieuses à chaque instant s'effondrent
Et nous ne percevons la métamorphose qu'après des
  milliers de siècles.

Nous sommes des cocons suspendus à des feuilles
  d'arbres sans nom,
Chrysalides, attendant la métamorphose cyclique du temps.
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Bridget Tichenor
Attente (1961)
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Eu me maldigo


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Eu me maldigo
Je me maudis


Que estalem nos céus os trovões, os relâmpagos,
Que as nuvens se estilhacem
E as montanhas se rachem.
Que as estrelas se embaciem
E o sol se apague para que meu corpo não tenha
 sombra.
Que as correntes marítimas
Carreguem meus braços para as praias fétidas
E o vento impeça meus joelhos de se dobrarem.
Que o raio fulmine a única palavra boa que eu tinha.
Que meus olhos se apodreçam
E se transformem em água
Para que não se levantem além das raízes.
Que a gosma dos vulcões
Soterre meu sexo,
Que os vermes fujam da minha carne
E o pó se levante fugindo antes de eu passar.
Que o cheiro de minha boca
Resseque o grão embaixo da terra
E meus cabelos sirvam de corda para os enforcados.
Que minha língua se enrole enegrecida dentro de
 minha garganta
E me diga as maiores injúrias.
Que a terra seja fendida como um ventre de mulher,
Que a destruição absoluta
Desça sobre meu corpo, meus sentidos,
Meu espírito, meu passado,
Meu presente, meu futuro
E liberte minha origem
Da lembrança dos homens.
Que le tonnerre et ses éclairs gronde dans les cieux,
Que volent en éclats les nuages
Et s'écroulent les montagnes.
Que les étoiles se brouillent
Et que le soleil disparaisse pour que mon corps n'ait
  plus d'ombre.
Que les courants marins
Emportent mes bras vers des plages fétides,
Et que le vent m'empêche de plier les genoux.
Qu'un rai fulmine à la seule bonne parole que j'aie dite.
Que mes yeux pourrissent
Et se transforment en eau,
Sans plus pouvoir s'élever au-dessus des racines.
Que la bave des volcans
Ensevelisse mon sexe,
Que les vers s'enfuient de ma chair
Et que la poussière s'élève, en fuite avant mes pas.
Que mon haleine
Dessèche les graines dessous la terre
Et que mes cheveux servent de corde au pendu.
Que ma langue s'enroule, qu'elle noircisse au fond de
  ma gorge,
Et me dise les pires insultes.
Que la terre s'entrouvre comme un ventre de femme,
Que la destruction absolue
S'abatte sur mon corps, mes sens,
Mon esprit, mon passé,
Mon présent, mon futur,
Et libère mes origines
De la mémoire des hommes.
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Frida Kahlo
Ce que l'eau m'a donné (1939)
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