Não me demoro, prometo...


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Não me demoro, prometo...
Je ne serai pas long, promis...


Não me demoro, prometo:
Há, afinal, tantos indícios
De que também o mundo tem pressa,
Tanto vento a levar o dia
Numa respiração desesperada
Com sacos plásticos e folhas e cabelos.
Afinal, como poderia eu ficar,
Se todos os dias há algo mais,
Um pouco mais, do coração
Que é arrastado pela corrente,
Cobrado pela erosão?
Educaram-me a nunca pecar
Pela presença em excesso,
A fazer-me escasso ou invisível
Antes de me tornar indesejável.
Mas será possível que seja
O amor a indesejar-nos?
Sem dúvida, até essas mãos que nos quiseram tanto,
Que queriam agarrar-nos a alma
Com todo o tipo de sortilégios tácteis,
Mãos de dedos alciónicos
Que pareceram prometer tempo,
Calmaria, bonança,
Até esses começam a suar de tédio,
E inventam desculpas para serem livres
E eu prometi sempre que não me demorava.

Je ne serai pas long, promis :
Il y a tant de signes, après tout,
De l'empressement du monde,
Tant de vent qui emporte le jour
Dans un souffle désespéré
Avec sacs en plastique, feuilles et cheveux.
Après tout, comment pourrais-je rester,
Si tous les jours il y a autre chose,
Un peu plus, du cœur
Qui est tiré par le courant,
Et repris par l'érosion ?
On m'a appris à ne jamais pécher
Par un excès de présence,
À me rendre rare ou invisible
Avant de devenir indésirable.
Mais est-il possible que ce soit
L'amour qui nous rende importun ?
Sans doute, jusqu'à ces mains qui tant nous désiraient,
Qui voulait saisir notre âme
Avec toutes sortes de charmes tactiles,
Mains aux doigts d’alcyon
Qui paraissaient promettre un temps
Bonace, une accalmie,
Elles aussi, commençaient à transpirer d'ennui,
Et inventaient des excuses pour être libres
Et je leur promettais toujours de n'être pas trop long.

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Philippe Marlats
Alcyon (2017)
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Solitário


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Solitário
Solitaire


Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta,
Por trás dos ermos túmulos, um dia,
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta...
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele,
— Velho caixão a carregar destroços —

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!

Comme un fantôme qui se réfugie
Mort, dans la solitude de la nature,
Un jour, derrière les tombes désertes,
Je suis allé me réfugier près de ta porte !

Il faisait froid et le froid qu'il faisait
N'était pas là pour consoler nos chairs...
Il était aussi coupant que l'acier
Incisif des couteaux de l'abattoir !

Tu n'es pas venu voir mon Infortune !
Et je suis parti, rejeter par tous,
– Vieux cercueil envoyé à la décharge –

Ne portant sur ma carcasse tombale
Que le bizarre parchemin de ma peau
Et le cliquetis fatidique de mes os !

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Mimmo Paladino
Dormeurs (1999)
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Solilóquio de um visionário


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Solilóquio de um visionário
Soliloque d'un visionnaire


Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!

A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que eu sinto,
Nas divinas visões do íncole etéreo!

Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais...

Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que inda eu suba mais!

Pour déflorer le labyrinthe
du vieux Mystère métaphysique,
j'ai mangé crus mes yeux devant le cimetière,
avec l'anthropophagie d'un affamé !

La digestion de ce mets funèbre
au coulis de sang a transformé l'instinct
Des humaines impressions visuelles que je ressens,
En les divines visions de mes aîtres éthérés !

Vêtu d'hydrogène incandescent,
J'ai erré un siècle, infructueusement,
À travers les monotonies sidérales...

J'ai monté peut-être aux plus grandes hauteurs,
Mais si je reviens aujourd'hui, avec une âme en aveugle,
c'est qu'il est nécessaire que je monte encore plus !

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Pieter Bruegel le Vieux
La parabole des aveugles (détail) (1568)
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Ricordanza della mia gioventù


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Ricordanza della mia gioventù
Ricordanza della mia gioventù


A minha ama-de-leite Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava...
Via naquilo a minha própria ruína!

Minha ama, então, hipócrita, afetava
Suscetibilidade de menina:
"- Não, não fora ela!-" E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.

Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito...
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha.

Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!

Ma mère-de-lait Guilhermina avait dérobé
Les pièces que le docteur m'avait données.
Sa Jeune-Maitresse, ma Mère, l'avait tancée ...
En cela j'ai vu ma propre ruine !

Ma nourrice, alors, avec hypocrisie, affecta
Une susceptibilité de jeune fille :
"- Non, ce n'était pas elle ! -" Et maudissant le sort,
Jura qu'elle n'avait absolument rien dérobé.

Cependant, je vois, maintenant, dans mon lit,
Qu'à moi seulement le fait du vol incombait...
Toi seul tu dérobas la pièce, l'or qui brille.

La pièce seule fut dérobée, mais moi, nourrice,
J'ai dérobé bien plus, car j'ai dérobé ta poitrine
Qui n'aurait dû donner du lait que pour ta fille !

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Lucílio de Albuquerque
Nourrice noire (1912)
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Queixas noturnas


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Queixas noturnas
Plaintes nocturnes


Quem foi que viu a minha Dor chorando?!
Saio. Minh'alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando!

Não trago sobre a túnica fingida
As insígnias medonhas do infeliz
Como os falsos mendigos de Paris
Na atra rua de Santa Margarida.

O quadro de aflições que me consomem
O próprio Pedro Américo não pinta...
Para pintá-lo, era preciso a tinta
Feita de todos os tormentos do homem!

Como um ladrão sentado numa ponte
Espera alguém, armado de arcabuz,
Na ânsia incoercível de roubar a luz,
Estou á espera de que o Sol desponte!

Bati nas pedras dum tormento rude
E a minha mágoa de hoje é tão intensa
Que eu penso que a Alegria é uma doença
E a Tristeza é minha única saúde.

As minhas roupas, quero até rompê-las!
Quero, arrancado das prisões carnais.
Viver na luz dos astros imortais,
Abraçado com todas as estrelas!

A Noite vai crescendo apavorante
E dentro do meu peito, no combate,
A Eternidade esmagadora bate
Numa dilatação exorbitante!

E eu luto contra a universal grandeza
Na mais terrível desesperação
É a luta, é o prélio enorme, é a rebelião
Da criatura contra a natureza!

Para essas lutas uma vida é pouca
Inda mesmo que os músculos se esforcem;
Os pobres braços do mortal se torcem
E o sangue jorra, em coalhos, pela boca.

E muitas vezes a agonia é tanta
Que, rolando dos últimos degraus,
O Hércules treme e vai tombar no caos
De onde seu corpo nunca mais levanta!

É natural que esse Hércules se estorça,
E tombe para sempre nessas lutas,
Estrangulado pelas rodas brutas
Do mecanismo que tiver mais força.

Ah! Por todos os séculos vindouros
Há de travar-se essa batalha vã
Do dia de hoje contra o de amanhã,
Igual á luta dos cristãos e mouros!

Sobre histórias de amor o interrogar-me
E vão, é inútil, é improfícuo, em suma;
Não sou capaz de amar mulher alguma
Nem há mulher talvez capaz de amar-me.

O amor tem favos e tem caldos quentes
E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;
O coração do Poeta é um hospital
Onde morreram todos os doentes.

Hoje é amargo tudo quanto eu gosto;
A bênção matutina que recebo...
E é tudo: o pão que como, a água que bebo,
O velho tamarindo a que me encosto!

Vou enterrar agora a harpa boêmia
Na atra e assombrosa solidão feroz
Onde não cheguem o eco duma voz
E o grito desvairado da blasfêmia!

Que dentro de minh'alma americana
Não mais palpite o coração - esta arca,
Este relógio trágico que marca
Todos os atos da tragédia humana!

Seja esta minha queixa derradeira
Cantada sobre o túmulo de Orfeu;
Seja este, enfim, o último canto meu
Por esta grande noite brasileira!

Melancolia! Estende-me a tu'asa!
És a árvore em que devo reclinar-me...
Se algum dia o Prazer vier procurar-me
Dize a este monstro que eu fugi de casa!

Qui d'autre a vu pleurer ma Douleur ?!
Je pars. Mon âme part à l'agonie.
Marchent de sombres monstres sur la route
Et je marche sur la route, parmi ces monstres !

Je ne porte pas dissimulé sous la tunique
Les insignes effroyables du malheureux
Comme les faux mendiants de Paris
Dans les ténèbres de la rue Sainte-Marguerite.

Le tableau des afflictions qui me consument
Pedro Américo lui-même ne peut le peindre...
Car pour le peindre, il lui faudrait une couleur
Composée de tous les tourments de l'homme !

Assis sur le bord d'un pont comme un voleur
Armé d'une arquebuse, attendant quelqu'un,
Avec le désir incontrôlable de voler la lumière,
Je suis là, et j'attends que le Soleil se lève !

J'ai battu les pierres d'un tourment si rude
Et ma peine aujourd'hui est si intense
Qu'il me semble que la joie est une maladie
Et que la tristesse est mon unique santé.

Mes vêtements, je voudrais les déchirer !
Je voudrais m'arracher des prisons charnelles,
Et vivre à la lumière des astres immortelles,
dans l'embrassement de toutes les étoiles !

La Nuit s'accroit, épouvantable
Et dans ma poitrine, en bataille,
L'Éternité accablante palpite
Dans une exorbitante dilatation !

Et je lutte contre l'universelle grandeur
Avec le plus terrible désespoir...
C'est la lutte, la dispute énorme, c'est la rébellion
De la créature contre la nature !

Pour ces luttes, une vie est peu de chose
Alors même que les muscles s’enforcissent ;
Les pauvres bras du mortel se tordent
Et le sang gicle, présuré, par la bouche.

Et bien souvent l'agonie est telle
Que, roulant depuis les ultimes degrés,
Hercule tremble et tombe au chaos
D'où son corps jamais ne se relève !

Il est naturel que cet Hercule s'efforce,
Et tombe pour toujours dans ces luttes,
Étranglé par les roues brutales
D'un mécanisme d'une plus grande force.

Ah ! Pour tous les siècles futurs
Cette vaine bataille doit être menée
Aujourd'hui aussi bien que demain,
Pareille à la lutte des chrétiens et des maures!

Sur les histoires d'amour il est vain
de m'interroger, c'est inutile, stérile en somme ;
Je ne suis capable d'aimer aucune femme
Aucune femme n'est capable de m'aimer.

L'amour est un miel, est chaleureux bouillon
Et au temps qu'il fait du bien, il fait du mal ;
Le cœur du Poète est un hôpital
Où vont mourir tous ceux qui souffrent.

Aujourd'hui, est amer tout ce que j'aime ;
La bénédiction matutinale que je reçois...
C'est tout un : le pain que je mange, l'eau que je bois,
Le vieux tamarinier contre lequel je m'appuie !

J'enterre maintenant ma harpe bohémienne
Dans une solitude noire, stupéfiante et féroce
Où n'arrive jamais l'écho d'une voix
Ni le cri égaré du blasphème !

Que dans mon âme américaine
Ne palpite plus mon cœur – cette arche,
Cette horloge tragique marquant
Tous les actes de la tragédie humaine !

Que ce soit là ma dernière plainte
Chanté sur la tombe d'Orphée;
Enfin, que ce soit mon chant ultime
Dans cette grande nuit brésilienne !

Mélancolie ! Étends sur moi ton aile !
Tu es l'arbre sur lequel je dois m'appuyer...
Et si un jour le Plaisir vient me chercher
Dis à ce monstre, que j'ai fui de chez moi !

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Alexandre Séon
Lamentation d'Orphée (1896)
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Psicologia de um vencido


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Psicologia de um vencido
Psychologie d'un vaincu


Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênces da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Moi, fils du carbone et de l'ammoniac,
Monstre d'obscurités et de rutilance,
Je souffre, depuis l'épigenèse de l'enfance,
De la mal influence des signes du zodiaque.

Profondissimement hypocondriaque,
Cette ambiance cause en moi du dégoût... Monte
À ma bouche une envie analogue à l'envie
Qui s'échappe de la bouche d'un cardiaque.

Déjà le ver – cet ouvrier des ruines –
Que le sang pourri des carnages mange,
Et à la vie en général déclare la guerre,

Vient épier mes yeux pour les ronger,
Et se doit de ne laisser que mes cheveux
Dans la froideur inorganique de la terre !


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Theodore Gericault
Le noyé (étude pour Le radeau de la Méduse, 1819)
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Os doentes - I


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Os doentes - I
Les malades - I


Como uma cascavel que se enroscava,
A cidade dos lázaros dormia...
Somente, na metrópole vazia,
Minha cabeça autônoma pensava!

Mordia-me a obsessão má de que havia,
Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
E uma garganta de órfã que gemia!

Tentava compreender com as conceptivas
Funções do encéfalo as substâncias vivas
Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam...

E via em mim, coberto de desgraças,
O resultado de bilhões de raças
Que há muitos anos desapareceram!

Comme un crotale qui s'entortille
La cité des lépreux s'endormait...
Tout seul, dans la métropole vide,
Mon esprit autonome pensait !

M'avait mordu l'obsession mauvaise
Que j'avais, sous mes pieds, me trainant
Sur la terre, foie malade qui saigne,
Et gorge d'orphelin gémissant !

J'ai tenté de comprendre avec les fonctions
Conceptives de l'encéphale les substances vives
Que ni Spencer ni Haeckel n'avaient comprises...

Et j'ai vu en moi, couvert de tant de maux,
Le résultat de milliards de races qui –
Il y a bien des années ont disparu !

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Bonaventura Berlinghieri
Saint François soigne les lépreux (1235)
...

O Mar, a Escada e o Homem


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O Mar, a Escada e o Homem
La Mer, l'Échelle et l'Homme


"Olha agora, mamífero inferior,
"À luz da epicurista ataraxia,
"O fracasso de tua geografia
"E do teu escafandro esmiuçador!

"Ah! Jamais saberás ser superior,
"Homem, a mim, conquanto ainda hoje em dia,
"Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia
"Voando ao vento o vastíssimo vapor.

"Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me!"
E a verticalidade da Escada íngreme:
"Homem, já transpuseste os meus degraus?!"

E Augusto, o Hércules, o Homem, aos soluços,
Ouvindo a Escada e o Mar, caiu de bruços
No pandemônio aterrador do Caos!

« Regarde maintenant, mammifère inférieur,
« À la lumière de l'épicurienne ataraxie,
« Le fracas de ta géographie
« Et de ton scaphandre inquisiteur !

« Ah ! jamais tu ne sauras, Homme, être
« Supérieur à moi, bien qu'au-jour-d'hui encore,
« Avec la grande hélice auxiliaire, avec laquelle, jadis,
« l'immense vapeur, là volant au vent, la fringante

« Nef déchire l'eau hideuse et cingle vers moi ! »
Et la verticalité de l'Échelle abrupt :
« Homme, franchissais-tu déjà les degrés ?! »

Et Augusto, l'Hercule, l'Homme aux sanglots,
En écoutant l'Échelle et la Mer, est tombé la tête en bas
dans le pandémonium effroyable du Chaos !

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Jean de Bologne, dit Giambologna
Hercule et le Centaure (1599)
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O Deus-Verme


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O Deus-Verme
Le Dieu-Ver


Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme - é o seu nome obscuro de batismo.

Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...

Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Du transformisme, universel facteur.
Fils de la téléologique matière,
Dans la misère ou la surabondance,
Ver – est le nom de son baptême obscur.

Jamais il n'emploie l'exorcisme obstiné
Dans son occupation funèbre journalière,
Il vit en concubinage avec la bactérie,
Libéré des habits de l'anthropomorphisme.

Ingurgitant la pourriture des aigres drupes,
Hydropiques repas, il ronge de maigres viscères
Et fait gonfler les mains des défunts nouveaux...

Ah ! Elle est pour lui, la viande pourrie qui reste,
Et dans l'inventaire du riche matériau
Échoit à ses enfants la meilleure des portions !

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Damien Hirst
Bust of the Collector (2017)
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O Caixão Fantástico


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O Caixão Fantástico
Le cercueil fantastique


Célere ia o caixão, e, nele, inclusas,
Cinzas, caixas cranianas, cartilagens
Oriundas, como os sonhos dos selvagens,
De aberratórias abstrações abstrusas!

Nesse caixão iam talvez as Musas,
Talvez meu Pai! Hoffmânnicas visagens
Enchiam meu encéfalo de imagens
As mais contraditórias e confusas!

A energia monística do Mundo,
À meia-noite, penetrava fundo
No meu fenomenal cérebro cheio...

Era tarde! Fazia muito frio.
Na rua apenas o caixão sombrio
Ia continuando o seu passeio!

Le cercueil allait véloce avec en lui, inclus,
Cendres, boîtes crâniennes, cartilages
Indigènes, comme les rêves des sauvages,
Et d'aberrantes abstractions abstruses !

Dans ce cercueil allaient peut-être les Muses,
Peut-être mon Père ! Hoffmanniques visages
Qui emplissaient mon encéphale des images
Les plus contradictoires et les plus confuses !

L’énergie monistique du Monde,
À minuit, pénétrait profondément
Au plein de mon phénoménal cerveau.

Il était bien tard ! Il faisait froid.
Seul dans la rue le sombre cercueil
Allait continuant son voyage !

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Paul Cézanne
Pyramide de crânes (1898-1900)
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Idealisação da ⁠⁠Humanidade Futura


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Idealisação da ⁠⁠Humanidade Futura
Idéalisation de l'humanité future


Rugia nos meus centros cerebrais
A multidão dos seculos futuros
— Homens que a herança de impetos impuros
Tornára ethnicamente irracionaes! —
 
Não sei que livro, em lettras garrafaes,
Meus olhos liam! No humus dos monturos,
Realisavam-se os partos mais obscuros,
Dentre as genealogias animaes!
 
Como quem esmigálha protozoarios
Meti todos os dedos mercenarios
Na consciencia daquella multidão...
 
E, em vez de achar a luz que os Céus inflama,
Somente achei moléculas de lama
E a mosca alegre da putrefacção!

Rugissait dans mes centres cérébraux
La multitude des siècles futurs
– Hommes que l’héritage d'élans impures
Rendra ethniquement irrationnel ! –

Je ne sais quel livre, en lettres géantes,
Lisaient mes yeux ! Dans l'humus des fumiers,
Avaient lieu les plus obscures des naissances,
Parmi les généalogies animales !

Pareil à qui émiette des protozoaires
J'ai mis tous mes doigts mercenaires
Dans la conscience de cette multitude.

Et au lieu de la lumière que les Cieux enflamment,
Je n'ai trouvé que des molécules de boue
Et la mouche joyeuse de la putréfaction !

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Jan Fabre
Totem (2016)
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Contrastes


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Contrastes
Contrastes


A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...

L'antithèse du neuf et de l'obsolète,
L'Amour la Paix, la Haine et le Carnage,
Ce qu'aime l'homme ce que l'homme déteste,
Tout convient à l'homme, pour qu'il soit complet !

Un angle obtus, et donc un angle droit,
La manière humaine, et l'autre, divine
Ils sont téguments exine et intine1
Tous les deux servant au même fœtus !

Je sais tout cela plus que l'Ecclésiaste!
Par juxtaposition de ces contrastes,
Un hémisphère va en rejoindre un autre,

Les joies sont accompagnées de tristesse,
Le charpentier qui fabrique les tables
Fait aussi les cercueils du cimetière !...

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Victor Vasarely
Zèbre (1960)
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Budismo moderno


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Budismo moderno
Bouddhisme moderne


Tome, Dr., esta tesoura e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contacto de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!

Prenez, Dr, ces ciseaux et... coupez
Ma personne tout à fait singulière.
Que m'importe si la vermine ronge
Tout ce qui est mon cœur après la mort ?!

Ah ! Un vautour s'est posé sur mon sort !
Des diatomées de la lagune aussi
La capsule du cryptogame s'effrite
Au rude contact d'une dextre1 forte !

Et se dissout, par conséquent, ma vie
Pareille à une cellule tombée
Dans l'aberration d'un ovule infécond ;

Mais l'abstraite agrégation des regrets
finit de battre aux degrés perpétuels
Du dernier vers que je fis dans le monde !

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Rembrandt Harmenszoon van Rijn
Leçon d'anatomie du Docteur Deyman (1656)
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As cismas do destino - I


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As cismas do destino - I
Les lubies du destin - I


Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia... O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!

Tal uma horda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!

Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro.

Livres de microscópios e escalpelos,
Dançavam, parodiando saraus cínicos,
Bilhões de centrossomas apolínicos
Na câmara promíscua do vitellus.

Mas, a irritar-me os globos oculares,
Apregoando e alardeando a cor nojenta,
Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-se as mãos rudimentares!

Mostravam-se o apriorismo incognoscível
Dessa fatalidade igualitária,
Que fez minha família originária
Do antro daquela fábrica terrível!

A corrente atmosférica mais forte
Zunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,
Julgava eu ver o fúnebre candieiro
Que há de me alumiar na hora da morte.

Ninguém compreendia o meu soluço,
Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas,
O vento bravo me atirava flechas
E aplicações hiemais de gelo russo.

A vingança dos mundos astronômicos
Enviava à terra extraordinária faca,
Posta em rija adesão de goma laca
Sobre os meus elementos anatômicos.

Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!

Mas o vento cessara por instantes
Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orco
Abafava-me o peito arqueado e porco
Num núcleo de substâncias abrasantes.

É bem possível que eu um dia cegue.
No ardor desta letal tórrida zona,
A cor do sangue é a cor que me impressiona
E a que mais neste mundo me persegue!

Essa obsessão cromática me abate.
Não sei por que me vêm sempre à lembrança
O estômago esfaqueado de uma criança
E um pedaço de víscera escarlate.

Quisera qualquer coisa provisória
Que a minha cerebral caverna entrasse,
E até ao fim, cortasse e recortasse
A faculdade aziaga da memória.

Na ascensão barométrica da calma,
Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,
Que uma população doente do peito
Tossia sem remédio na minh'alma!

E o cuspo que essa hereditária tosse
Golfava, à guisa de ácido resíduo,
Não era o cuspo só de um indivíduo
Minado pela tísica precoce.

Não! Não era o meu cuspo, com certeza
Era a expectoração pútrida e crassa
Dos brônquios pulmonares de uma raça
Que violou as leis da Natureza!

Era antes uma tosse ubíqua, estranha,
Igual ao ruído de um calhau redondo
Arremessado no apogeu do estrondo,
Pelos fundibulários da montanha!

E a saliva daqueles infelizes
Inchava, em minha boca, de tal arte,
Que eu, para não cuspir por toda a parte,
Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!

Na alta alucinação de minhas cismas
O microcosmos líquido da gota
Tinha a abundância de uma artéria rota,
Arrebentada pelos aneurismas.

Chegou-me o estado máximo da mágoa!
Duas, três, quatro, cinco, seis e sete
Vezes que eu me furei com um canivete,
A hemoglobina vinha cheia de água!

Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,
Sob a forma de mínimas camândulas,
Benditas seja todas essas glândulas,
Que, quotidianamente, te segregam!

Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!

Porque, se no orbe oval que os meus pés tocam
Eu não deixasse o meu cuspo carrasco,
Jamais exprimiria o acérrimo asco
Que os canalhas do mundo me provocam!

Recife. Pont Buarque de Macedo.
Moi, allant en direction de la maison d'Agra,
Hanté par la maigreur de mon ombre,
Je pensais à mon Destin et j'avais peur !

Du haut de la voute austère le phosphore
Blanc des étoiles brillait... La pierre
du trottoir, au dur asphalte noir et vitreux,
Imitait le poli d'un crâne chauve.

J'en ai le souvenir. Le pont était long,
Et mon ombre énorme remplissait le pont,
Comme une peau de rhinocéros
Étendue partout sur ma vie !

La nuit fécondait l'œuf des vicieux
animaux. Du charbon des immenses ténèbres
tombait un air damné par la maladie
sur la façade publique des bâtiments !

Telle une horde féroce de chiens affamés,
Traversant une station de gare déserte,
hurlait au-dedans de moi, la bouche ouverte,
La meute des instincts effarés!

C'était comme si, dans l'âme de la ville,
Profondément lubrique et révoltée,
Montrant ses chairs, une bête sans entrave
avait lâché son beuglement animal.

Et approfondissant mon obscur raisonnement,
Je vis alors, à la lumière des reflets dorés,
Le travail génésique des sexes, façonnant,
À la nuit tombée, les hommes du Futur.

Exempts de microscopes et de scalpels,
Ils dansaient, parodiant de cyniques soirées,
Milliards de centrosomes apolliniens
Dans la promiscuité de la chambre vitelline.

Mais, comme ils irritaient mes globes oculaires,
Proclamant et affichant leur couleur dégoûtante,
Maigres fœtus, toujours dans leur placenta,
Ils ont tendu leurs mains rudimentaires !

Se montrer l'apriorisme inconnaissable
De cette fatalité égalitaire,
Qui rendait ma famille, originaire
De l'antre de cette terrible usine !

Le courant atmosphérique le plus fort
Siffla. Et dans la croûte ignée de Cruzeiro,
Je crus voir la lampe funéraire qui viendra
M'illuminer à l'heure de ma mort.

Personne n'avait compris mon hoquet,
Pas même Dieu ! Entre les pans de ma veste,
Le vent furieux me lançait des flèches
Et des applications hiémales de gelée russe.

La vengeance des mondes astronomiques
Envoya sur la terre un extraordinaire couteau
Se poster, avec l'adhésion rigide d'une laque
Contre mes éléments anatomiques.

Ah ! Certainement, Dieu me punissait !
Partout, comme à l'aveu d'un coupable,
Il y avait un juge qui lisait le code de procédure
Et, spéciale, une potence qui m'attendait!

Mais le vent cessa pour un instant
Ou, du moins, l'ignis sapiens de l'Ogre
Et le poitrail arqué, je m'étouffais, sali
Par la nucléation de substances dévorantes.

Il est fort possible qu'un jour je sois aveugle.
Dans la brûlure de cette zone torride et létale,
La couleur du sang est celle qui m'impressionne
Le plus au monde, me hante et me poursuit !

Cette obsession chromatique me submerge.
Je ne sais pas pourquoi me viennent toujours
À l'esprit, l'estomac poignardé d'un enfant
Et un morceau de viscères écarlates.

Je voudrais quelque chose de temporaire
qui puisse entrer dans ma caverne cérébrale,
Et jusqu'à la fin, coupe et recoupe
cette faculté funeste de la mémoire.

Dans la montée barométrique du calme,
Je savais bien, anxieux et mal à l'aise,
Qu'une population de poitrinaire
Toussait sans remède en mon âme !

Et le crachat que cette toux héréditaire
Vomissait, en guise d'acide résiduel,
N'était pas seulement le crachat d'un individu
Miné par une phtisie précoce.

Non ! Ce n'était pas mon crachat, assurément
Mais l'expectoration putride et grossière
Des bronches pulmonaires d'une race
Qui a violé les lois de la nature !

Une toux étrange, ubiquitaire, égale
Auparavant au bruit d'un galet rond
Décoché à l'apogée du fracas,
Par des montagnards frondeurs !

Et la salive de ces malheureux
Enfla dans ma bouche, avec un tel art,
Que, pour ne pas cracher partout,
J'engloutissais, peu à peu, l'hémoptysie !

Dans le grand délire de mes lubies
Le microcosme liquide de la goutte
Avait l'abondance d'une artère brisée,
Rompue par les anévrismes.

J'arrivais au sommet de la souffrance !
Deux, trois, quatre, cinq, six et sept
Fois je me perçais à coup de canif,
Et l'hémoglobine jaillit remplie d'eau !

Crachat, dont les flots mouillent mes lèvres,
Sous la forme de minuscules chapelets,
Bénies soient toutes ces glandes,
Qui te sécrètent, quotidiennement !

Expectorer d'un abîme à un autre abîme,
Envoyant au Ciel la fumée d'une cigarette,
Il y a plus de philosophie dans ces crachats
Que dans toute la morale du christianisme !

Car si je n'ai pas laissé cracher mon bourreau
sur l'orbe ovale que mes pieds touchent,
Je n'exprimerais jamais assez l'âcre nausée
Que les canailles du monde provoquent en moi !

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Stanislav Bojankov
Nocturne - CXLI (2016)
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Asa de corvo


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Asa de corvo
Aile de corbeau


Asa de corvos carniceiros, asa
De mau agouro que, nos doze meses,
Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes
O telhado de nossa própria casa...

Perseguido por todos os reveses,
É meu destino viver junto a essa asa,
Como a cinza que vive junto à brasa,
Como os Goncourts, como os irmãos siameses!

É com essa asa que eu faço este soneto
E a indústria humana faz o pano preto
Que as famílias de luto martiriza...

É ainda com essa asa extraordinária
Que a Morte - a costureira funerária -
Cose para o homem a última camisa!

Aile de corbeaux carnassiers, aile
De mauvais augure qui, dans les douze mois,
parfois couvre l'espace et couvre parfois,
de notre propre maison, la toiture...

Malheureux persécuté par tous les revers,
C'est mon destin de vivre à côté de cette aile,
Comme la cendre qui vit jointe à la braise,
Comme les Goncourt, comme les frères siamois !

C'est avec cette aile que je fais ce sonnet
Et l'industrie humaine a fait l'étoffe noire
Que les familles en deuil ont rendu martyr...

C'est encore avec cette aile extraordinaire
Que la Mort – la couturière des funérailles –
A cousu pour l'homme son ultime chemise !

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Odilon Redon
Le corbeau (1882)
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