Fragilidade


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Fragilidade
Fragilité


Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto
movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades
e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.

Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em
feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita,
a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.

Ce vers, il est à peine une arabesque
autour de l'élément essentiel – inaccessible.
Fuient les nuages ​​d'été, passent les oiseaux, ondes, navires,
et ton visage est presque un miroir où joue l'incertain
mouvement,
Là ! déjà il joue, et tout s'immobilise, des quantités
et quantités
de sommeil se déposent sur la terre défaite.

Non plus le désir d'expliquer, et de multiples paroles
en faisceau
ascendant, et l'esprit qui choisit, l'œil qui visite,
la musique
faite de purifications et de purifications, le délicat modelé
d'un cristal aux mille soupirs frais et limpides : mais rien
qu'une arabesque, une simple arabesque
embrassant les choses, sans les réduire.

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Amadeo de Souza Cardoso
Parto da viola Bom Ménage (1916)
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Consolo na praia


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Consolo na praia
Consolation sur la plage


Vamos, não chores…
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
 
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
 
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
 
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
 
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
 
Tudo somado, devias
precipitar-se – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

Allons, ne pleure pas...
Ton enfance est perdue.
Ta jeunesse est perdue.
Mais tu n'as pas perdu la vie.

Le premier amour est passé.
Le second amour est passé.
Le troisième amour est passé.
Mais le cœur continue.

Tu as perdu ton meilleur ami.
Tu n'as entrepris aucun voyage.
Tu ne possèdes ni maison, ni bateau, ni terre.
Mais tu as un chien.

Quelques mauvaises paroles
dites à voix douce t'ont blessé,
Et jamais, jamais ne cicatrisent.
Mais alors, et l'humour ?

L'injustice n'a pas été réparée.
Tu as, dans l'ombre faussée d'un monde
murmuré une protestation trop timide.
Mais d'autres viendront.

Au bout du compte, tu devrais
– une fois pour toutes – te précipiter dans l'eau.
Tu es nu sur le sable, dans le vent...
Dors, mon fils.

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Hector Julio Páride Bernabó dit Carybé
Mère et fils (1977)
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Carrego comigo


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Carrego comigo
Je porte avec moi


Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho.

Serão duas cartas?
será uma flor?
será um retrato?
um lenço talvez?

Já não me recordo
onde o encontrei.
Se foi um presente
ou se foi furtado.

Se os anjos desceram
trazendo-o nas mãos,
se boiava no rio,
se pairava no ar.

Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém,
ou se algo contém,
nunca saberei.

Como poderia
tentar esse gesto?
O embrulho é tão frio
e também tão quente.

Ele arde nas mãos,
é doce ao meu tacto.
Pronto me fascina
e me deixa triste.

Guardar um segredo
em si e consigo,
não querer sabê-lo
ou querer demais.

Guardar um segredo
de seus próprios olhos,
por baixo do sono,
atrás da lembrança.

A boca experiente
saúda os amigos.
Mão aperta mão,
peito se dilata.

Vem do mar o apelo,
vêm das coisas gritos.
O mundo te chama:
Carlos! Não respondes?

Quero responder.
A rua infinita
vai além do mar.
Quero caminhar.

Mas o embrulho pesa.
Vem a tentação
de jogá-lo ao fundo
da primeira vala.

Ou talvez queimá-lo:
cinzas se dispersam
e não fica sombra
sequer, nem remorso.

Ai, fardo sutil
que antes me carregas
do que és carregado,
para onde me levas?

Por que não me dizes
a palavra dura
oculta em teu seio,
carga intolerável?

Seguir-te submisso
por tanto caminho
sem saber de ti
senão que te sigo.

Se agora te abrisses
e te revelasses
mesmo em forma de erro,
que alívio seria!

Mas ficas fechado.
Carrego-te à noite
se vou para o baile.
De manhã te levo

para a escura fábrica
de negro subúrbio.
És, de fato, amigo
secreto e evidente.

Perder-te seria
perder-me a mim próprio.
Sou um homem livre
mas levo uma coisa.

Não sei o que seja.
Eu não a escolhi.
Jamais a fitei.
Mas levo uma coisa.

Não estou vazio,
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível.

Je le porte avec moi
depuis des dizaines d'années
depuis des centaines d'années
ce petit colis.

Serait-ce deux lettres ?
serait-ce une fleur ?
serait-ce un portrait ?
un mouchoir peut-être?

Je ne me souviens plus
où je l'ai trouvé,
s'il s'agit d'un cadeau
ou s'il fut dérobé.

Si les anges sont descendus
le mettre entre mes mains,
s'il flottait sur la rivière,
ou s'il planait dans l'air.

Je n'ose pas l’entrouvrir.
Voir la chose qu'il contient,
ou s'il contient quelque chose,
je ne le saurai jamais.

Comment pourrais-je
accomplir un tel geste ?
Le colis est si froid,
aussi froid qu'il est chaud.

Il me brûle les mains,
Il est doux au toucher.
Aussitôt il me fascine
et me rend triste.

Garder un secret
en lui et avec lui.
Ne pas désirer savoir
ou désirer trop.

Garder un secret
pour tes yeux seuls,
au-dessous du sommeil,
en arrière de la mémoire.

Expérimentée la bouche
accueille les amis.
La main serre la main,
la poitrine se dilate.

L'appel vient de la mer,
vient du cri des choses.
Le monde t'appelle:
Carlos ! Ne réponds-tu pas ?

Tu veux répondre.
La rue infinie
va au-delà de la mer.
Tu veux marcher.

Mais ce colis te pèse.
Vient la tentation
de le jeter au fond
du premier fossé.

Ou le brûler peut-être :
disperser les cendres
et n'avoir pas même
l'ombre d'un remords.

Oh, fardeau subtil
qui me porte avant
de porter ton fardeau,
où me conduis-tu ?

Pourquoi ne me dis-tu pas?
la parole sévère
cachée dans ton sein,
poids intolérable ?

Te suivre, soumis
par tous les chemins
sans rien savoir de toi
mais te suivre.

Si maintenant tu l'ouvrais
et qu'à toi il se révélât,
même sous la forme d'une erreur,
quel soulagement ce serait !

Mais tu restes fermé.
Je t'emporte la nuit
si je vais danser.
Le matin, je t'emporte

dans l'usine obscure
d'une banlieue noire.
De fait, c'est un ami.
évident et secret.

Le perdre serait
me perdre.moi-même.
Je suis un homme libre
mais je porte une chose.

Je ne sais ce qu'elle est.
Je ne l'ai pas choisie.
Je ne l'ai jamais vue.
Mais je porte une chose.

Je ne suis pas vide,
Je ne suis pas seul,
elle m'accompagne.
Elle est indescriptible.

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Jean-Michel Folon
Rêve en valise (1975)
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A Flor e a Náusea


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A Flor e a Náusea
La fleur et la nausée


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cizenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações
e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas
sem ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas
da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas
em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo
e o ódio.

Étriqué de classe, vêtu de quelques vêtements,
je marche blanc dans la rue grise.
Mélancolies et marchandises me guettent.
Dois-je continuer jusqu'à vomir ?
Puis-je me révolter, sans armes ?

Yeux salis à l'horloge de la tour:
Non, le temps de la justice n'est pas encore accomplie.
L'heure est aux excréments, aux hallucinations des mauvais
poèmes, et à l'attente.
Pauvre temps, pauvre poète
à se bâtir dans la même impasse.

En vain, j'essaie de m'expliquer, les murs sont sourds.
Dessous la peau des mots ne sont que chiffres et codes.
Le soleil conforte les souffreteux sans les guérir.
Les choses. Qu'elles sont tristes les choses considérées
sans emphase.

Vomir cet ennui sur la ville.
Quarante ans et je n'ai résolu
aucun problème, je n'ai pas même
écrit ni reçu la moindre lettre.
Tous les hommes retournent à la maison.
Ils ont peu de liberté mais lisent les journaux
pour épeler le monde, sachant qu'ils vont le perdre.

Les crimes de la terre, comment les pardonner ?
J'ai pris part à beaucoup, me suis caché des autres.
Ceux que j'ai trouvés beaux, je les ai publiés.
Crimes suaves qui vous aident à vivre.
Ration d'erreur journalière, distribuée à la maison.
Les féroces boulangers,
les féroces laitiers du mal.

Mettre le feu à tout, y compris moi.
Ils ont baptisé d'anarchiste le garçon de 1918.
Pourtant ma haine est le meilleur de moi-même.
Avec elle, je me sauve
et donne un peu d'une brève espérance.

Une fleur est née dans la rue !
Passez au loin, tramways, bus, fleuve d'acier du trafic.
Une fleur encore décolorée
qui déboute la police et défonce l'asphalte.
Établissez un complet silence, paralysez tous les négoces,
Je vous jure qu'une fleur est née.

Sa couleur ne se perçoit pas.
Ses pétales ne s'ouvrent pas.
Son nom n'est pas dans les livres.
Elle est laide. Mais c'est vraiment une fleur.

Je suis assis par terre dans la capitale du pays
à cinq heures du soir
et lentement, je pose ma main sur cette forme incertaine.
Du côté des montagnes, enfle une masse nuageuse.
De petits points blancs s'agitent sur la mer, poules
en panique.
Elle est laide. Mais c'est une fleur. Surgie de l'asphalte,
de l'ennui, du dégoût et de la haine.

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George Grosz
Scène de rue (1930)
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Sentimento do mundo


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Sentimento do Mundo (1940) »»
 
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Sentimento do mundo
Sentiment du monde


Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microcopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

Je n'ai que deux mains
et le sentiment du monde,
mais je suis empli d'esclaves,
ma mémoire cavale
et mon corps transige
à la confluence de l'amour.

Quand je me lèverai, le ciel
sera mort et saccagé,
Je serai mort moi-même,
mort mon désir, mort
le marais sans accords.

Les camarades n'ont pas dit
qu'il y avait une guerre
et qu'il fallait apporter
du feu et de la nourriture.
Je me sens dispersé
antérieur à des frontières,
Je te prie humblement
de me pardonner.

Quand les corps auront passé,
Je serai seul
à démêler le souvenir
du sonneur, de la veuve et du microscopiste
qui habitaient la baraque
et n'ont pas été retrouvés
à l'aube

cette aube
plus nuit que la nuit.

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Georges Braque
Si je mourais là-bas̀ (1962)
...

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