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Sugestões


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Sugestões
Suggestions


A chuva cai sobre as folhas
Enquanto o vento dobra a intenção das flores
O hálito da terra molhada
Avoluma sugestões no pensamento
Desenha na penumbra da memória
Restos de século, sonhos partidos
E imprecisas causas de sofrimento.
A chuva traz para o meu corpo
O vestido de uma mulher sem nome
Sepultada numa hora sem fixação.
O vento penteia meus cabelos
Com a forma dos ninhos em abandono
Olho o céu intumescido de tristeza
E reconheço que uma forma surgindo na neblina
Tem os meus ombros e o contorno da minha cabeça
Ouço o vento regressando das infâncias esquecidas
Trazendo as cantigas de roda
Contando as histórias de fadas
Quando a minha voz
Era a voz de menina.
Eu sinto a chuva cair com volúpia
Sobre o solo agradecido
E o vento levar para as distâncias novamente
Fragmentos de muitas vidas
E a evasão dos meus pensamentos.
La pluie tombe sur les feuilles
Tandis que le vent fléchit la volonté des fleurs.
La terre humide en son souffle
Amplifie les suggestions de ma pensée.
Elle organise dans la pénombre des souvenirs
Les vestiges du siècle, les rêves brisés
Et les causes imprécises de la souffrance.
La pluie pose sur mon corps
la robe de cette femme anonyme
Ensevelie dans l'heure indécise.
Le vent peigne mes cheveux
Leur donnent l'aspect de nids à l'abandon.
Je contemple un ciel tuméfié de tristesse
Et reconnais une forme émergeant de la brume
Ce sont mes épaules, le contour de ma tête.
J'entends le vent revenir des enfances oubliées
Rapportant des comptines,
Racontant des histoires de fées,
Lorsque ma voix
Était celle d'une enfant.
Je sens la pluie tomber avec volupté
Sur la terre reconnaissante
Et le vent de nouveau se lève qui emporte au loin
Les fragments de beaucoup de vies
Et l'échappement de mes pensées.
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Jeremy Mann
Le dernier train (1929)
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Poesia entre o cais e o hospital


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Poesia entre o cais e o hospital
Poésie entre le quai et l'hôpital


Geme no cais o navio cargueiro
No hospital ao lado, o homem enfermo.
O vento da noite recolhe gemidos
Une angústias do mundo ermo.
Maresia transborda do mar em cansaço,
Odor de remédios inunda o espaço.
Máquina e homem, ambos exaustos
Um, pela carga que pesa em seu bojo
Outro, na dor tomando o seu corpo.
Cais, hospital: Portos de espera
E começo de fim da longa viagem.
Chaminés de cargueiros gritando no mar,
Garganta do homem em gemidos no ar.
No fundo, o universo,
O mar infinito,
O céu infinito,
O espírito infinito.
Neblinados em tristezas e medos
Surgem silêncios entre os rochedos.
Chaminés de cargueiros gritando no mar
E a garganta do homem em gemidos no ar.
Gémit sur le quai le navire de charge
À l'hôpital tout proche, l'homme malade.
Le vent de la nuit recueille les râles
Y noue l'angoisse d'un monde désolé,
Fatiguée, la brise marine déborde sur la mer,
L'odeur des remèdes inonde l'espace.
La machine et l'homme sont épuisés
L'une, par le poids qui pèse dans ses soutes
L'autre, par la douleur qui occupe son corps
Quai, hôpital : ports dans l'attente
Et le début de la fin d'un long voyage.
Les cheminées des cargos hurlent en mer,
La gorge de l'homme qui gémit dans les airs
Au fond, l'univers,
La mer infinie,
Le ciel infini,
L'esprit infini.
Brouillés par la tristesse et la peur,
Surgissent des silences parmi les roches.
Les cheminées des cargos hurlent en mer,
Et la gorge de l'homme qui gémit dans les airs.
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Raoul Dufy
Le Cargo noir aux jetées blanches (1949)
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Evolução


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Evolução
Évolution


Depois da vida outras mortes viverão
Trazendo o pólen dos silêncios insepultos
Nos ventos desatados pelos prantos.
Depois do amor outros cansaços se levantarão
Marcando as carnes gretadas pelo tédio
Na aparência de satisfação.
Depois da virgindade outros mercados surgirão
Vendendo os corpos fecundados
Sob o prazer, o asco e a exaustão.
Depois dos túmulos ficará o pó dos ossos
Cobrindo as imagens mutiladas
Pela consciência insone dos enfermos.
Depois da colheita outros frutos apodrecerão.
Outros rebanhos fugirão das pestes
E novas águas brotarão do solo novo
Removendo os universos tombados.
Depois do sono agitado da memória
Outras lembranças vestirão outros sentidos
Com o manto insistente do remorso
E com a palavra fatal da solidão.
Depois da invasão da alma outros massacres se
 repetirão
Em destinos de sangue e maldição
Cultivados em rancores dormidos.
Depois da morte outras vidas surgirão
Carregando consciências em angústia
Corpos de amores saturados
Olhos vazados em dores ancestrais
Vencendo os múltiplos limites do tempo
Que levam aos abismos das mortes reais.
Depois do vácuo
Outras vidas mortas nascerão.
Après cette vie, d'autres morts vivront,
Portant le pollen sans sépulture des silences
Dans les vents délivrés par les larmes.
Après l'amour, d'autres lassitudes viendront,
Marquant les chairs crevassées d'ennui
Sous une apparence de satisfaction.
Après la virginité, d'autres marchés surgiront,
Vendant les corps fécondés
Par le dégoût, le plaisir et l'épuisement.
Après les tombes, seule la poussière des ossements
Recouvrira les images mutilées
Par la conscience insomniaque des malades.
Après la moisson, d'autres fruits pourriront.
D'autres troupeaux fuiront les fléaux
Et des eaux nouvelles jailliront d'un sol nouveau
Emportant les univers déchus.
Après le sommeil agité de la mémoire
D'autres réminiscences vêtiront d'autres sens
Du manteau insistant du remords
Et de la parole fatale des solitudes.
Après l'invasion de l'âme, il y aura d'autres massacres
  qui se répéteront
En destins de sang et de malédiction
Cultivés par des rancœurs latentes.
Après la mort, d'autres vies surgiront
Porteuses de consciences tourmentées
De corps imprégnés d'amour
D'yeux évidés aux douleurs ancestrales
Ayant vaincu les limites d'un temps multiple
Menant aux abîmes de la mort véritable.
Après le vide,
D'autres vies mortes naîtront.
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Roue de la Vie ou Roue du Samsara
Monastère de Kopan, Katmandou (Népal)
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Do fim para o princípio


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Do fim para o princípio
De la fin à l'origine


Nada mais acontecerá
Porque tudo já aconteceu.
Amanhã é ontem e ontem é hoje.
Meu nascimento, minha vida,
Minha morte e meu julgamento
Já chegaram dentro de mim
Antes de chegar para todos.
Sei que ninguém mais nascerá,
Se alguém nasceu foi um instante
E os que vivem foram abafados
Antes de acabar como cosmos, como universo.
Em tudo e para tudo
o mundo já começou por acabar dentro de mim mesma.
Espero o princípio, porque o fim
Já está comigo desde a minha formação.
Plus rien n'arrivera
Puisque tout est déjà arrivé.
Demain sera comme hier et aujourd'hui.
Ma naissance, ma vie,
Ma mort et mon jugement
Arrivent toujours en moi
Avant d'arriver aux autres.
Plus personne ne naîtra, je le sais ;
Si quelqu'un nait, ce n'est qu'un instant
Et même ceux qui vivent déjà s'éteignent
Avant que le cosmos, avant que l'univers ne finisse.
En tout et pour tous,
Le monde a déjà commencé par finir en moi-même..
J'attends l'origine, puisque la fin
Est toujours en moi depuis ma conception.
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Roberto Crippa
Spirales (1952-1953)
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Distâncias perdidas


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Distâncias perdidas
Lointains perdus


Iluminados por luz que nasce na distância
E largados à vontade sem destino
Cavalgamos campos e relvados
Vazios de montes ou vales aguados.
A colheita de horizontes é farta
Mas inatingível para a fome de repouso.
No céu os mares sonolentos ou raivosos,
Na terra, do canto morto e irrevelado
Nascem braços como espigas ressecadas,
Na paisagem
Exuberante cresce a solidão
Sem deixar rastros da nossa passagem.
Éclairés par une lumière venue de loin
Et livrés sans but à nous-mêmes
nous chevauchons prairies et champs.
Pas la moindre colline ou vallées humides.
Nombre de lignes à l'horizon s'offrent à nous,
Mais restent inaccessibles à notre soif de repos.
Les mers sous le ciel sont paisibles ou furieuses ;
Sur la terre, d'une région morte et irrévélée
Se lèvent des bras, épis de blé desséchés ;
Dans le paysage
Exubérant, la solitude grandit
Sans garder traces de notre passage.
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Félix Valloton
Coucher de soleil (1911)
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Vivência


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Vivência
Existence


Começamos a viver
Quando saímos do sono da existência,
Quando as distâncias se alongam nas partículas
  do corpo.

Começamos a viver
Quando confusos e sem consolo
Não sentimos os traços do irmão perdido.
Quando antes da força
Surge a sombra do insignificante.
Quando o sono é transformado em sonhos superados,
Quando o existir não é contradição.

Começamos a viver
Quando percebemos a mutação das células,
Quando fugimos de dentro de nós mesmos
E escondemos a nossa carne num caramujo oco.
Quando o espírito falsificado esquece
As tortuosas estradas
E quando deixamos de ser escaravelhos laboriosos.

Começamos a viver
Quando velamos além do sono
A vida irreal dos nossos passos.
Nous commençons à vivre
Lorsque nous sortons du sommeil de l'existence,
Lorsque les distances s'allongent entre les particules
  du corps.

Nous commençons à vivre
Lorsque, confus et inconsolables,
Nous ne sentons plus les traces de notre frère disparu.
Lorsque avant la force
Surgit l'ombre de l'insignifiant.
Lorsque le sommeil se transforme en rêves surmontés,
Lorsque exister n'est plus contradictoire..

Nous commençons à vivre
Lorsque nous percevons la mutation des cellules,
Lorsque nous fuyons au-dedans de nous-mêmes
Et cachons notre chair dans une coquille vide.
Lorsque l'esprit falsifié oublie
Les chemins tortueux
Et lorsque nous cessons d'être des scarabées laborieux.

Nous commençons à vivre
Lorsque, au-delà du sommeil, nous réveillons
La vie irréelle de nos pas.
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Kazuko Shiihashi
Colline bleue cobalt (2022)
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Teoria de zero


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Teoria de zero
Théorie du zéro


O desejo absorve dois corpos
E por instantes funde-os na unidade.
Sentimentos com a força das marés vazantes
Baixam sobre dois corpos
Deixando às próximas marés enchentes
Dois corpos abandonados, flutuando
No oceano aberto.
Le désir absorbe deux corps
Et par instants les fusionne en un seul.
Des émotions pareilles à la force d'un reflux
Emportent les deux corps
Laissant pour les marées prochaines
Deux corps abandonnés, flottant
À la surface de l'océan.
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Lorenzo Mattotti
Dans l'eau (2021)
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Rotina de todos nós


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Rotina de todos nós
Notre quotidien à tous


Ser fragmento do transitório,
Analisar-se no mistério do demudado,
Saber perder o que jamais foi possuído
Mas desejado,
Esperar o que nunca foi criado,
Cravar-se em raízes já extintas,
Conduzir-se por idéias não nascidas,
Ver grandezas na própria fraqueza,
Proclamar o amor sobre o desamor,
Ser pureza ao lado da degradação
É existir no que não tem sentido,
É esquecer o que não foi pensado,
É caminhar sem deixar traços,
É ser pássaro sem asas
É tentar sair do chão para os espaços.
Être un fragment de l'éphémère,
S'analyser dans le mystère du changement,
Savoir perdre ce qui n'a jamais été possédé
Mais seulement désiré,
Attendre ce qui jamais ne fut créé,
S'enfoncer en des racines déjà éteintes,
Être porté par des idées encore à naître,
Voir de la grandeur dans sa propre faiblesse,
Proclamer l'amour contre le désamour,
Être la pureté aux côtés de la dégradation,
Être en vie dans ce qui n'a pas de sens,
Être et oublier ce qui n'a pu être pensé,
Être et marcher sans laisser de traces,
Être oiseau et être sans ailes,
Être et quitter le sol pour les grands espaces.
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Ismael Nery
Composition surréaliste (1929)
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Repetição


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Repetição
Répétition


No abrir de cada dia
Está presente a sombra de todas as noites.
Mãos em desespero esvoaçam
Tentando atingir a fímbria da vida.
Lâmpadas reabastecidas
Na esperança da vinda do Grande Esperado.
A carne é devolvida ao pó
Enquanto a memória da nossa infância
Se apaga aos poucos na memória da infância dos
 nossos filhos
Diluída na dos nossos netos.
Memórias sem dono
Substituídas pelos tentáculos do ventre materno
Para a lenta e angustiante viagem para o exílio.
Dans l'ouvert de chaque jour
Est présente l'ombre de toutes les nuits.
Des mains tremblent, désespérées
Cherchent à atteindre les fibres de la vie.
Des lampes se renflamment
Dans l'espoir de la venue de la Grande Espérance.
La chair est redevenue poussière
Tandis que le souvenir de notre enfance
S'épuise peu à peu dans la mémoire de l'enfance
  de nos fils
Puis se dilue dans celle de nos petits-enfants.
Souvenirs sans maitre
Remplacés par les tentacules du ventre maternel
Pour le lent et angoissant voyage vers l'exil.
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Vincent van Gogh
L'Arlésienne (Portrait de Mme Ginoux) (1890)
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Procissão das bestas


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Procissão das bestas
Procession des bêtes


  também para Dante Milano

Mundos de conflitos que o silêncio engole,
Sombras lentas e pesadas
Reduzem os olhos a bagaços.
Ruminações da memória
No branco da vida extenuada
Na paisagem sem ninguém.
Nos gritos soltos
Sem a devolução do eco.

No oco das mãos
Ausente o suor de outra mão,
Formas amadas levadas pelo vento
Às nuvens que condensam o cansaço da
 terra,
Canções da carne traduzidas na rosa,
Promessas de fé em cada espera,
Na palavra esquecida do próprio som,

Circunferência de fogo em labaredas
Consumindo a ternura no cansaço.
Imaturas searas de amor,
Morte nos ossos das jornadas sem motivo.

Fadiga anterior à união dos sexos
Decompostos na traição de análises mútuas,
Espreitando sadicamente dois corpos nus fundidos
 na derrota.

Lodo cobrindo pés, atolando ventres,
Transformando bocas em esgotos
Reduzindo o amor a ato
Que o silêncio engole
Como fétida flor da noite.
  pour Dante Milano, également

Mondes de conflits que le silence engloutit,
Des ombres lentes et lourdes
Réduisent les yeux à l'état de cendre.
Ruminations de la mémoire
Dans la blancheur d’une vie exténuée
Dans un paysage sans personne.
Dans les cris isolés
Sans la restitution de l'écho

Dans le creux des mains,
Absente est la sueur d’une autre main,
Formes aimées emportées par le vent
Jusqu'aux nuages qui condensent toute la fatigue
  de la terre,
Chants de la chair traduits en rose,
Promesses de foi en chaque espoir,
En la parole oublieuse de son propre son,

Circonférence du feu au milieu des flammes
Consumant la tendresse en fatigue.
Moissons d'amour immatures,
Mort au fond des os des journées sans raison.

Fatigue antérieure à l’union des sexes
Décomposés par la trahison des analyses mutuelles,
Observation sadique de deux corps nus fusionnés
  dans la défaite.

La boue recouvre les pieds, embrouille les ventres,
Transforme les bouches en égouts
Réduisant l’amour à un acte
Que le silence englouti
Pareil à la fleur fétide de la nuit.
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Franz von Stuck
La chasse sauvage (1889)
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Pré-morte


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Pré-morte
Prémort


  Para o poeta Dante Milano

O escuro ser profundo, coisa sobrenatural,
Vontade oculta sem objeto,
Pousado na brasa sem lume
Dos ímpetos à procura de um destino.
Companheiro de farsas, mensageiro de aflições,
Mão sustentando a máscara na face intata,
Fuga na palavra dissolvida
No vácuo da imagem esquecida,
Sobra que embala em acalanto
De agonia em agonia,
O volume da tristeza e da alegria,
Nódoa que o desespero não apaga.
Tudo tão certo e tudo tão mal articulado,
Tudo tão fundido no abandono do querer,
Tão floresta sem saída, tão rachadura sem fundo,
Tão treva preexistida
Na corrente de amarrados conjuntos
No conceito de vazios absolutos,
No escuro que não deu à luz.
Oh canção de secura cantada em silêncio!
Oh escuro ser profundo!
  Pour le poète Dante Milano

L’être obscur et profond, chose surnaturelle,
Volonté occulte sans objet,
Déposé sur la braise sans flamme
Des pulsions à la recherche d’un destin.
Compagnon de farces, messager d’afflictions,
Main soutenant le masque sur le visage intact,
Fuit dans la parole dissoute
Dans la vacuité de l’image oubliée,
Débris qui balance et nous berce
D’agonie en agonie,
Somme de tristesse et de joie,
Souillure que le désespoir n’efface pas.
Tout est si sûr et tout est si mal articulé,
Tout est si fondu dans l’abandon du désir,
Mais aussi forêt sans issue, aussi blessure sans fond,
Aussi ténèbre préexistante
Dans le débordement des attaches conjointes
Par le concept du vide absolu,
Par l’obscurité qui n'a pas donné sa lumière.
Ô chant d’une aridité chantée en silence !
Ô être obscur et profond !
________________

Edvard Munch
L'odeur de la mort (1895)
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Patrimônio


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Patrimônio
Patrimoine


Pesam nos meus ossos
Os meus pensamentos,
Choram nos meus olhos
As visões neles crescidas,
Soluçam no torpor das minhas carnes
Ancestrais desalentos.

Sangram os meus pés
Na inútil andança
Da imaginação liberta,
Pulveriza o meu espírito
A solidão do suicida ignorado
E cresce assustadoramente dentro de mim
A calmaria que precede o fim.
Sur mes os pèsent
Le poids de mes pensées,
Mes yeux pleurent
Où grandissent des visions,
Dans la torpeur de ma chair sanglote
Un désespoir ancestral

Mes pieds saignent
Dans l'errance inutile
D'une imagination libérée,
Elle pulvérise mon esprit
La solitude du suicide ignoré
Elle progresse en moi de façon effrayante
Accalmie qui précède la fin.
________________

Julia Vengiel
Le calme avant la tempête (2024)
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Os cegos


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Os cegos
Les aveugles


Não vemos o mostrador do Tempo
Assim como não vemos
Uma forma de vida fundir-se noutra.
Não vemos a vida caminhar sobre nossa origem
Construindo muralhas contra nós mesmos.
Não ouvimos o cântico de guerra
Festejando nossos fracassos
Registrados nas páginas do pensamento.

A cada hora vemos e sentimos menos
O mostrador do Tempo.
Somos mutações desordenadas
Multiplicando-se nos porões fétidos
De galeras negras, abandonadas.
Nous ne voyons pas la montre du Temps
Ni même la fusion
D'une forme de vie en une autre.
Nous ne voyons pas la vie cheminer vers notre origine
Construisant des murs contre nous-mêmes.
Nous n'entendons pas le chant de guerre
Célébrant nos échecs
Inscrits dans les pages de nos pensées.

À chaque heure, nous sentons et voyons un peu
Moins la montre du Temps.
Nous sommes des mutations désordonnées
Se multipliant dans les cales fétides
De galères noires, abandonnées.
________________

William Turner
Stonehenge au crépuscule (1811)
...

Mulher


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Mulher
Femme


Na face, a geografia da angústia,
Dos pânicos e das medrosas alegrias.
Cada ruga é um presságio.
E auréola da aflição constante
O esplendor dos cabelos brancos.

Uma só raiz para frutos diversos,
Uma só vida para destinos tão complexos,
Um só pranto para dores tão diversas.

O útero que gera o herói, o sábio, o poeta,
O santo, o miserável e o assassino.
Uma só raiz para frutos tão diversos!

O dom da paz em cada gesto
Cai como noites quietas
Sobre a alma em rancor,
Amor acima do amor.
Sur son visage, une géographie d'angoisses,
De paniques et de joies timorées.
Chaque ride est un présage.
Et l'auréole d'une affliction constante,
La splendeur des cheveux blancs.

Une seule racine pour des fruits si divers,
Une seule vie pour des destins si complexes,
Une seule larme pour des douleurs si variées.

La matrice qui engendre le héros, le sage, le poète,
Le saint, le misérable et l'assassin.
Une seule racine pour des fruits si divers !

Le don de la paix en chaque geste
Tombe comme des nuits paisibles
Sur l'âme rancunière,
L'amour au-delà de l'amour.
________________

Pablo Picasso
Mère et enfant au fichu (1903)
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Metamorfose


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Metamorfose
Métamorphose


No combate entre o gelo e o fogo
A vida universal desdobra-se em ciclos
No espaço de mil séculos.
Tomamos consciência do cósmico,
Tentamos ligações com o espírito há muito abatido
E a alma afunda em dimensões pulverizadas.
Dá-se a recuperação das espécies rejeitadas,
O achado do perdido não procurado.
Do implacável e do flamejante
O universo não está terminado.
Há mutações silenciosas em cada instante que soçobra
E que só percebemos da metamorfose de mil em
 mil séculos.

Somos casulos pendurados nas folhas de árvores
 sem nome,
Casulos à espera da metamorfose cíclica do tempo.
Dans la lutte entre la glace et le feu,
La vie universelle se déploie cyclique
en l'espace de mille siècles.
Nous avons pris conscience du cosmique,
essayant de renouer avec l'esprit vaincu depuis longtemps,
Et l'âme se noie en ses dimensions pulvérisées.
On voit renaître des espèces autrefois rejetées,
On retrouve de ce qui était perdu, inexploré.
Implacable et flamboyant
L'univers n'est pas encore achevé.
Des mutations silencieuses à chaque instant s'effondrent
Et nous ne percevons la métamorphose qu'après des
  milliers de siècles.

Nous sommes des cocons suspendus à des feuilles
  d'arbres sans nom,
Chrysalides, attendant la métamorphose cyclique du temps.
________________

Bridget Tichenor
Attente (1961)
...

Eu me maldigo


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Eu me maldigo
Je me maudis


Que estalem nos céus os trovões, os relâmpagos,
Que as nuvens se estilhacem
E as montanhas se rachem.
Que as estrelas se embaciem
E o sol se apague para que meu corpo não tenha
 sombra.
Que as correntes marítimas
Carreguem meus braços para as praias fétidas
E o vento impeça meus joelhos de se dobrarem.
Que o raio fulmine a única palavra boa que eu tinha.
Que meus olhos se apodreçam
E se transformem em água
Para que não se levantem além das raízes.
Que a gosma dos vulcões
Soterre meu sexo,
Que os vermes fujam da minha carne
E o pó se levante fugindo antes de eu passar.
Que o cheiro de minha boca
Resseque o grão embaixo da terra
E meus cabelos sirvam de corda para os enforcados.
Que minha língua se enrole enegrecida dentro de
 minha garganta
E me diga as maiores injúrias.
Que a terra seja fendida como um ventre de mulher,
Que a destruição absoluta
Desça sobre meu corpo, meus sentidos,
Meu espírito, meu passado,
Meu presente, meu futuro
E liberte minha origem
Da lembrança dos homens.
Que le tonnerre et ses éclairs gronde dans les cieux,
Que volent en éclats les nuages
Et s'écroulent les montagnes.
Que les étoiles se brouillent
Et que le soleil disparaisse pour que mon corps n'ait
  plus d'ombre.
Que les courants marins
Emportent mes bras vers des plages fétides,
Et que le vent m'empêche de plier les genoux.
Qu'un rai fulmine à la seule bonne parole que j'aie dite.
Que mes yeux pourrissent
Et se transforment en eau,
Sans plus pouvoir s'élever au-dessus des racines.
Que la bave des volcans
Ensevelisse mon sexe,
Que les vers s'enfuient de ma chair
Et que la poussière s'élève, en fuite avant mes pas.
Que mon haleine
Dessèche les graines dessous la terre
Et que mes cheveux servent de corde au pendu.
Que ma langue s'enroule, qu'elle noircisse au fond de
  ma gorge,
Et me dise les pires insultes.
Que la terre s'entrouvre comme un ventre de femme,
Que la destruction absolue
S'abatte sur mon corps, mes sens,
Mon esprit, mon passé,
Mon présent, mon futur,
Et libère mes origines
De la mémoire des hommes.
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Frida Kahlo
Ce que l'eau m'a donné (1939)
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Nuage des auteurs (et quelques oeuvres)

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