Do feto que em mim brota


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Do feto que em mim brota
Du fœtus qui pousse en moi


Do meu corpo
o feto ossificado
há de brotar um dia.
Ele apenas se escondeu
nos vãos de minhas
sofridas entranhas,
enquanto eu de soslaio
assunto a brutalidade
do tempo.

Do meu olhar
a flor petrificada
em meu íntimo solo
contempla a distração de muitos
e balbucia uma estranha fala,
mas, eu sei qualquer dizer, 
pois, quem convive
com os forçados à morte,
decifra todos os sinais
e sabe quando o silêncio,
julgado eterno,
está para ser rompido.
Un jour, de mon
corps le fœtus
ossifié germera.
Il est seulement caché
dans les travées de mes
souffrantes entrailles,
tandis que j'observe
du coin de l’œil la brutalité
du temps.

Sous mon regard
la fleur pétrifiée
dans l'humus de mon intimité
contemple en eux leur distraction
et balbutie des mots étranges,
mais, je connais quelques discours,
et de vivre ainsi avec ceux
qui sont forcés de mourir
me permet de déchiffrer tous les signes
et de savoir lorsque le silence,
jugé éternel,
est sur le point d'être rompu.
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Victor Brauner
Téléventré (1948)
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De mãe


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De mãe
De ma mère


O cuidado de minha poesia
aprendi foi de mãe,
mulher de pôr reparo nas coisas,
e de assuntar a vida.

A brandura de minha fala
na violência de meus ditos
ganhei de mãe,
mulher prenhe de dizeres,
fecundados na boca do mundo.

Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo.

Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder
alegria inteira
e essa fé desconfiada,
pois, quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.

Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida
apontando-me o fogo disfarçado
em cinzas e a agulha do
tempo movendo no palheiro.

Foi mãe que me fez sentir
as flores amassadas
debaixo das pedras
os corpos vazios
rente às calçadas
e me ensinou,
insisto, foi ela
a fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
da minha fala.
Mon souci de la poésie,
il me vient de ma mère,
une femme qui prenait soin
des choses, et respecter la vie.

La douceur de ma parole
sous la violence de mes mots,
je la tiens de ma mère,
de dictons, femme enceinte,
fécondés dans la bouche du monde.

D'elle, me viennent, tous
mes trésors, tous mes gains,
femme de sagesse, yabá
discrète, du feu elle a tiré l'eau
des pleurs, inventé la consolation.

C'est de ma mère que me vient
cette moitié de rire cachant
toute ma joie
et cette foi méfiante ;
lorsque l'on marche pieds nus,
chaque orteil regarde la route.

C'est ma mère qui m'a dévoilé
les recoins miraculeux de la vie,
m'indiquant le feu déguisé
dans les cendres et l'aiguille du
temps qui bouge dans les foins.

C'est ma mère qui m'a fait sentir
les fleurs écrasées
dessous les pierres.
les corps évidés
rasant les trottoirs
et m'a enseigné,
j'insiste, c'est elle,
à faire du mot
l'artifice
de mon art et le métier
de ma parole
et de mon chant.
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Chris Ofili
Sans titre (2000)
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Tantos séculos de sangue...


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Tantos séculos de sangue...
Tant de siècles de sang...


Tantos séculos de sangue,
Tanto tempo truncado
Entre quatro paredes
Acrescentando-se à treva.
Tanto sofrimento, tantos processos,
Tantas leis, tantos crimes,
Tantas mortes, tantas despedidas,
As asas de tantas cartas
Escritas pelos encarcerados
Que sobre o papel deixam a sua voz de vento.
Tantos amores tornados dissolutos
Tantas famílias arruinadas,
Tantos homens como buracos,
Apenas para saber que dentro das grades,
Se divisa o rosto nu da liberdade,
Essência sensível.

Tant de siècles de sang,
Tant de temps corseté
Entre quatre murs
Renchérissant les ténèbres.
Tant de souffrances, tant de procès,
Tant de lois, tant de crimes,
Tant de morts, tant d'adieux,
Les ailes de tant de lettres
Écrites par des gens incarcérés
Laissant sur le papier leur voix de vent.
Tant d'amours qui se sont désunis,
Tant de familles ruinées,
Tant d'hommes enterrés là,
Rien que pour apprendre à deviner derrière
Les barreaux le visage nu de la liberté,
Fragile essence.

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Vincent van Gogh
Ronde des prisonniers (1890)
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Da conjuração dos versos


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Da conjuração dos versos
De la conjuration des vers


 — nossos poemas conjuram e gritam —

O silêncio mordido
rebela e revela
nossos ais
e são tantos os gritos
que a alva cidade,
de seu imerecido sono,
desperta em pesadelos.

E pedimos
que as balas perdidas
percam o nosso rumo
e não façam do corpo nosso,
os nossos filhos, o alvo.

O silêncio mordido,
antes o pão triturado
de nossos desejos,
avoluma, avoluma
e a massa ganha por inteiro
o espaço antes comedido
pela ordem.

E não há mais
quem morda a nossa língua
o nosso verbo solto
conjugou antes
o tempo de todas as dores.

E o silêncio escapou
ferindo a ordenança
e hoje o anverso
da mudez é a nudez
do nosso gritante verso
que se quer livre.
 — nos poèmes conjurent et crient —

Le silence mordu
se révolte et révèle
nos malheurs
et les cris sont si nombreux
que la ville ciblée,
de son sommeil immérité,
s'éveille dans les cauchemars.

Et nous prions
pour que les balles perdues
s'écartent de nous
et ne fassent pas de nos corps,
de nos enfants, la cible.

Le silence mordu,
avant le pain trituré
de nos désirs,
enfle, enfle
et la masse s'empare de tout
l'espace avant d'être modéré
par l'ordre.

Et il n'y a plus personne
qui morde notre langue
notre verbe librement
conjugué avant
le temps de toutes les douleurs.

Et le silence s'est échappé,
blessant l'ordonnance
et aujourd'hui l'avers
du mutisme est la nudité
de notre vers hurlant
qui se veut libre.
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Bertina Lopes
Grand cri (1970)
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Da calma e do silêncio


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Da calma e do silêncio
Du calme et du silence


Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
Lorsque je mords
dans la parole
s'il te plait
ne me presse pas.
Je veux la mastiquer,
déchiqueter entre mes dents
la peau, l'os et la moelle
de son verbe,
pour ainsi faire rimer
l'intime des choses.

Lorsque mes yeux
se perdent dans le vague,
s'il te plait
n'attire pas leur attention.
Je veux garder
au dedans de l'iris,
la plus petite ombre
du plus infime mouvement.

Lorsque je traine
des pieds en marchant,
s'il te plait
ne me force pas
Pour quoi marcher ?
Laisse les ralentir,
laisse-moi tranquille
en leur apparente inertie.
Tous les pérégrins
ne sont pas sur les routes,
il est des mondes sous marins,
que seul le silence
de la poésie peut pénétrer.
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Cândido Portinari
Migrante assise (1935)
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