Colares


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Colares
Colares


Em Colares, vi um bulldog branco anão em
em cima de uma coluna branca no jardim de uma
vivenda. É a minha recordação mais antiga. É es-
tranha. Parece inventada. Mas não é.

Fui com minha avó materna no eléctro da
Praia das Maçãs a Sintra. Tudo isto é muito prous-
tiano, é claro.

Quando era muito criança, passava alguns
dias de Verão numa pensão em Colares com a
minha família. Iam os meus pais, a minha avó
materna e irmã da minha avó materna.
Na quinta da pensão, vi uma porca deitada no
chão a dar de mamar a muitos leitõeszinhos. Adorei.

Em Colares, vi no céu o rasto de um avião a
jacto. Pensei que era um raio que ia cair em Lisboa
em cima de um armário de que gostava muito.
A minha mãe disse-me que não era assim. Há um
verso de Rimbaud que me lembra muito esta visão
da minha infância mas agora não encontro.

Há cinquenta anos, vi maçãs na Praia das
Maçãs trazidas por um riacho ou talvez seja con-
fusão minha.

Lembro-me de andar a passear à noite com os
meus pais em Colares pela estrada. A minha mãe
dizia-me: «Olha, um pirilampo.» Acho que nunca
vi nenhum. Ainda posso ver.

Ia muitas vezes a Sintra visitar o palácio da vila.
O cicerone já me conhecia. Dizia que eu gostava
mais de visitar o palácio do que de fazer covinhas
na praia. Não era assim. Gostar gostar era da Praia
Grande. Fui lá uma vez com minha prima Vera.
Fizemos um castelo com um fosso.
À Colares, j'ai vu un bouledogue blanc nain perché
sur une colonne blanche dans un jardin d'une
résidence. C'est mon plus ancien souvenir. C'est
étrange. On dirait une invention. Mais non, c'est vrai.

J'ai pris le tramway avec ma grand-mère maternelle
de Praia das Maçãs à Sintra. Tout cela est très proustien,
bien sûr.

Quand j'étais toute petite, j'ai passé quelques jours
d'été dans une pension à Colares avec ma famille.
Mes parents, ma grand-mère maternelle et la sœur
de ma grand-mère maternelle étaient là. À la ferme
de la pension, j'ai vu une truie couchée par terre,
allaitant ses nombreux porcelets. J'ai adoré.

À Colares, j'ai vu dans le ciel la traînée d'un avion à
réaction. J'ai cru que la foudre avait frapper Lisbonne
là au-dessus de l'armoire que j'aimais beaucoup. Ma
mère m'a dit que ce n'était pas du tout ça. Il y a un vers
de Rimbaud qui me rappelle beaucoup cette vision
de mon enfance, mais je n'arrive pas à le retrouver.

Il y a cinquante ans, j'ai vu des pommes sur Praia das
Maçãs, charriées par un ruisseau, ou peut-être est-ce
mon imagination.

Je me souviens de nos promenades nocturnes avec
mes parents à Colares, le long de la route. Ma mère
me disait : « Regarde, une luciole ! » Je crois que je
n'en ai jamais vu. Pourtant, je les vois encore.

J'allais bien souvent à Sintra visiter le palais national.
Le guide qui me connaissait de longue date, disait que
je préférais visiter le palais plutôt que faire des pâtés
sur la plage. Ce n'était pas vrai. J'aimais surtout Praia
Grande. J'y suis allée une fois avec ma cousine Vera.
Nous avons construit un château avec des douves.
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Alexis Rockman
La métairie (2000)
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