Violoncello


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Micheliny Verunschk »»
 
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Violoncello
Violoncelle


A louca dama, nua e fera
deita e luta
com o seu músico:
que a mantendo
por entre as pernas
vai aprendendo
músculo a músculo
o gemer denso
de madeira rouca
a doma intensa
o seco acústico.
La dame folle, féroce et nue
se couche et lutte
avec son musicien qui,
entre ses jambes
la maintient
et va lui apprendre,
muscle après muscle
le doux gémissement
du bois rauque, l'intense
apprivoisement
d'une acoustique sèche.
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John White Alexander
Un rayon de soleil (1898)
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Agora vais aprender a estar só…



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Nuno Rocha Morais »»
 
Poèmes inédits »»
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Agora vais aprender a estar só…
Désormais tu apprendras à être seul...


Agora vais aprender a estar só.
A olhar para as tuas mãos
Depois de te terem partido
Minuciosamente, um a um,
Todos os dedos, inúteis como gravetos.
Vê como não se dissolveram os teus gritos,
Cravados no ar. Vê,
Vais aprender a desprender de ti
Todo o amor com ferocidade
E, porém, numa perplexidade geométrica
E só poderás entender a perplexidade.
Tudo isto, há muito o adivinhavas,
Há tanto tempo – porque esta
Foi a solidão que em outros deixaste.
Désormais, tu apprendras à être seul.
En regardant tes mains
Après qu'ils t'auront brisé
Minutieusement, un à un,
Tous les doigts, brindilles inutiles.
Vois, ils ne se sont pas dissous tes cris,
Bloqués dans l'air. Vois,
Tu apprendras à te détacher de toi
De tes amours avec férocité
Et une perplexité, cependant géométrique
Mais ne pouvant comprendre que la perplexité.
Tout cela, tu l’as deviné il y a longtemps,
Il y a si longtemps – parce que
C’est la solitude que tu as laissée aux autres.
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Edward Hopper
Station-service (1940)
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Seda


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Seda
Soie


Costurados
sobre mim
as mãos e os pés
dos poetas mortos.
Como maçãs inchadas,
coaguladas
logo após o café.
Destroços laminados
de algum submarino
tocam de leve
os olhos feridos
e abrem à força
as bocas
(embora saibamos
que não podemos
naufragar na sala
que ela arde de dezembro).
Sutil seria, pois,
um outro beijo
como uma serpente
num cesto de fina palha,
mas ainda preferível este:
um verme
um fuso
uma flor:
aberta em chaga.
Couturés
sur moi
les mains et les pieds
des poètes morts.
Comme pommes tuméfiés,
fripées
juste après le café.
Épaves laminées
de quelque sous-marin
effleure un peu
les yeux blessés
et ouvre avec violence
les bouches
(même si nous savons
que nous ne pouvons pas
sombrer dans la pièce
qui brûle en décembre).
Oui, plus subtil serait
un autre baiser
comme une vipère
en un panier de fine paille,
et mieux encore serait :
un vermisseau
un fuseau
une fleur :
plaie ouverte
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Georgia O’Keeffe
Lignes grisées et du bleu, noir, jaune (1923)
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O violino


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O violino
Le violon


Entregue a sutil carícia
da curva do queixo
mal finge
que freme mesmo
é ao balé febril
das pontas dos dedos.
(Talhado em nobre madeira,
o filho de Eros
é dado ao gozo animal
ao humano sexo…)
Abandonné à la subtile caresse
de la courbe du menton
feignant même
de frémir
au ballet fiévreux
du bout de ses doigts.
(En un bois noble taillé,
est le fils d’Éros
s'adonnant au plaisir animal
du sexe humain...)
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Jean-Baptiste Oudry
Nature morte avec violon (1730)
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O livro


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O livro
Le livre


Havia de encontrar
alguma velha ferida
e nela, supurando ainda,
teu rosto:
outonos e invernos
esquecidos
entre páginas amarelas
e a dor, essa traça inútil.
Il me fallait retrouver
une vieille blessure
et en celle-ci, encore suppurant,
ton visage :
des automnes, des hivers
oubliés
entre des pages qui jaunissent
et la douleur, cet inutile ciron.
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Nicolas de Staël
Livres (1954-1955)
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