Dançaste e dançaste e dançaste...


Nom :
 
Recueil :
Source :
 
Autre traduction :
Nuno Rocha Morais »»
 
Poèmes inédits »»
nunorochamorais.blogspot.com (mai 2021) »»
 
Italien »»
«« précédent / Sommaire / suivant »»
________________


Dançaste e dançaste e dançaste...
Tu as dansé, dansé et dansé...


Dançaste e dançaste e dançaste
Como um perfume,
Como a sombra de uma brisa
Na fronde, magia
De uma cor ainda desconhecida,
O mais leve dos meses.
O meu pensamento fragmentou-se
Em ilhas intermitentes
E à deriva, mas creio
Talvez me encontres como um seixo
Depois de no coração
Te terem corrido muitos rios.
Partilharemos então os gomos
De sol que nos restarem.

Tu as dansé, dansé et dansé
Comme un parfum
Comme l'ombre d'une brise
Dans les frondaisons, la magie
D'une couleur encore inconnue,
Ou le plus léger des mois.
Ma pensée s'est fragmentée
En des îles intermittentes
À la dérive, mais je crois
Que tu pourras me retrouver, galet
peut-être, après que dans ton cœur.
aient coulé nombre de rivières.
Nous partagerons alors les bourgeons
du soleil qui nous restent.

________________

Olimpia Zagnoli
Danse Danse Danse (2017)
...

Anos sem fim, à luz do mar aceso...


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Jorge de Sena »»
 
Peregrinatio ad loca infecta (1969) »»
 
Italien »»
«« précédent /  Sommaire / suivant »»
________________


Anos sem fim, à luz do mar aceso...
Années sans fin, sous les feux de la mer...


Anos sem fim, à luz do mar aceso,
te vi nudez quase total, tão grácil
figura juvenil, ambígua e fácil,
e ao longe às vezes totalmente nua
em só relance de malícia crua.

Tudo isso me atraía e me afastava,
embora a vista retornando escrava,
a teus lugares me tivesse preso.

E quase sempre então tua figura,
sentada estátua, ou falsa sesta impura,
lá era, ao sol, o tempo congelado.

Hoje, subitamente, tu não viste
ninguém senão o meu olhar quebrado,
e com lenta inocência te despiste.

Mas quantas rugas no sorriso ansiado!

Années sans fin, sous les feux de la mer,
Je t'ai vu , gracile figure juvénile.
presque nue, ambiguë et facile,
et parfois au loin nue entièrement
sous le seul regard d'une malice crue.

Tout cela m'attirait, et m'éloignait,
Qu'importe, devenue esclave, ma vue
de tes atours demeurait prisonnière.

Et presque toujours alors ta silhouette,
Statue assise, ou sieste impure, et fausse
restait là, sous le soleil, un temps figé.

Aujourd'hui soudain, toi qui ne voyait
personne si ce n'est mon regard brisé,
avec une lente innocence, tu étais nue.

Mais que de rides, en ce désireux sourire !

________________

Amedeo Modigliani
Nu assis sur un divan (1917)
...

A Portugal


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Jorge de Sena »»
 
Peregrinatio ad loca infecta (1969) »»
 
Italien »»
«« précédent /  Sommaire / suivant »»
________________


A Portugal
Au Portugal


Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
á luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
com esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.

Est-ce la patrie bienheureuse, ma bien-aimée ? Non.
Elle n'est pas bienheureuse, ne le méritant pas.
Elle n'est pas ma bien-aimée, n'étant que marâtre.
Elle n'est pas non plus ma patrie, car je ne mérite
pas la malchance d'y être né.

Rien ne me retient ou me lie à une bassesse telle
que cette éructation de gloires passées.
Mes amis les plus chers sont là-bas,
nostalgiquement là-bas, mais les amis sont
faits pour être des amis, et rien de plus.

Déjection obscène de l'empire romain ;
spume des invasions; salure porcine
des égouts de l'Atlantique ; face dérisoire
faite de boue, de cupidité et de bassesse,
de mesquinerie, d'ignorance fatale ;
terre d'esclaves, cul péteux écoutant
grincer dans le brouillard la nef de l'Occulte ;
terre de fonctionnaires et de prostituées,
de tous les dévots du miracle, chastes
aux heures libres de la maladie cachée ;
terre de héros appesantis d'or et de sang,
et de saints boutiquiers du sec et de l'humide
dans les profondeurs de la vertu ; triste pays
sous la lumière du soleil, chaulée, fardée, sale,
pleine d'affabilité envers les étrangers
qui laissent des pièces et rapportent des puces,
ô les puces lusitaniennes, pour l'Europe ;
la terre des monuments où le peuple
assignent la merde à son anonymat ;
terre-musée où l'on vit encore,
avec des porcs dans la rue, les maisons celtes ;
terre de poètes si sentimentaux
que l'odeur d'une aisselle met en transe ;
terre de pierres désossées, sèches
comme ces sentiments de huit siècles
d'escrocs et de patrons, barons ou comtes ;
ô terre de personne, personne, personne :

Je t'appartiens. Tu es garce, tu es salope,
tu n'es rien de plus qu'une chienne en chaleur,
tu es la peste, la famine et la guerre et le cœur souffrant.
Je t'appartiens : mais jamais tu n'seras mienne, non.

________________

Ambrogio Lorenzetti
Allégorie [ du bon et ] du mauvais gouvernement (1338-1339)
...

Chopin: Um inventário


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Jorge de Sena »»
 
Arte de Música (1968) »»
 
Italien »»
«« précédent /  Sommaire / suivant »»
________________


Chopin: Um inventário
Chopin: Un inventaire


Quase sessenta mazurcas; cerca de trinta estudos;
duas dúzias de prelúdios; uma vintena de nocturnos;
umas quinze valsas; mais de uma dúzia de “polonaises”;
“scherzos”, improvisos, e baladas, quatro de cada;
três sonatas para piano; e dois concertos para piano
 e orquestra,
uma “berceuse”, uma barcarola, uma fantasia, uma
 tarantela, etc.,
além de umas dezassete canções para canto e piano; uma
 tuberculose mortal;
um talento de concertista; muitos sucessos mundanos; uma
 paixão infeliz;
uma ligação célebre com mulher ilustre; outras ligações
 sortidas;
uma pátria sem fronteiras seguras nem independência
 concreta;
a Europa francesa do Romantismo; várias amizades com
 homens eminentes;
e apenas trinta e nove anos de vida. Outros viveram menos,
 escreveram mais,
comeram mais amargo o classicamente amargo pão do
 exílio, foram ignorados
ou combatidos, morreram abandonados, não se passearam
 nas alcovas
ou nos salões da glória, confinaram-se menos ao
 instrumento que melhor dominavam,
e mesmo foram mais apátridas sofrendo de uma pátria que
 não haja.
Além disso, quase todos escaparam mais à possibilidade
 repelente
de ser melodia das virgens, ritmo dos castrados,
requebro de meia-tijela, nostalgia dos analfabetos,
e outras coisas medíocres e mesquinhas da vulgaridade,
 como ele não. Ou de ser
prato de não-resistência para os concertistas que tocam
 para as pessoas que julgam
que gostam de música mas não gostam. Ainda por cima
era um arrivista, um pedante convencido da aristocracia que
 não tinha,
um reaccionário ansiando por revoluções que libertassem
 as oligarquias
da Polónia, coitadinhas, e outras. E, para cúmulo,
a gente começa a desconfiar de que não era sequer
 um romântico,
pelo menos da maneira que ele fingiu ser e deixou entender
 que era.
Uma arte de compor a música como quem escreve
 um poema,
a força que se disfarça em languidez, um ar de inspiração
ocultando a estrutura, uma melancolia harmónica por sobre
a ironia melódica (ou o contrário), a magia dos ritmos
usada para esconder o pensamento – e escondê-lo tanto,
que ainda passa por burro de génio este homem que tinha
 o pensamento nos dedos,
e cuja audácia usava a máscara do sentimento ou das
 formas livres
para criar-se a si mesmo. Tão hábil na sua cozinha, que
 pode servir-se
morno, às horas da saudade e da amargura,
quente, nas grandes ocasiões da vida triunfal,
e frio, quando só a música dirá o desespero vácuo
de ser-se piano e nada mais no mundo.

Près de soixante mazurkas ; environ trente d'études ;
deux douzaines de préludes ; une vingtaine de nocturnes ;
une quinzaine de valses ; plus d'une douzaine de "polonaises" ;
des "scherzos", improvisations, et ballades, quatre de chaque ;
trois sonates pour piano, et deux concertos pour piano
 et orchestre,
une "berceuse", une barcarole, une fantaisie,
 une tarentelle, etc.,
par ailleurs, quelques dix-sept chansons pour chant et piano,
 une tuberculose mortelle ;
un talent de concertiste ; nombre de succès mondains ;
 une passion malheureuse ;
une liaison célèbre avec une femme illustre ; d'autres,
 assorties ;
une patrie sans frontières sûres ni indépendance
 concrète ;
l'Europe française du Romantisme ; diverses amitiés avec
 des hommes éminents ;
et tout juste trente neuf années de vie. D'autres ont moins vécu,
 et plus écrit,
ont mangé plus amer le pain classiquement amer de l'exil,
 ont été ignorés
ou combattus, sont morts abandonnés, ne sont pas passés
 par l'alcôve
ou les salons de la gloire, se limitant moins à l'instrument
 qu'ils maitrisaient le mieux,
et même ont été plus apatrides souffrant d'une patrie
 qui n'existe pas
En outre, presque tous échappèrent à la possibilité
 écœurante
d'être mélodie des vierges, rythme des castrés,
roulade bas-de-gamme, nostalgie des analphabètes,
et autres choses médiocres et mesquines de vulgarité, alors
 que lui, non. Ou d'être
plat de non-résistance des concertistes qui jouent pour des
 gens qui pensent aimer
la musique alors qu'ils ne l'aiment pas. Et par là-dessus,
un arriviste, un pédant convaincu d'être l'aristocrate
 qu'il n'était pas,
un réactionnaire aspirant à des révolutions qui libèreraient
 les oligarchies
de Pologne, pauvresses, et autres. Et, pour couronner le tout,
on commença à soupçonner qu'il n'était même pas
 un romantique,
du moins tel qu'il prétendait l'être et laissait entendre
 qu'il l'était.
Un art de composer sa musique comme on écrit
 un poème,
la force qui se déguise en langueur, un air inspiré
masquant la structure, une mélancolie harmonique surplombant
l'ironie mélodique (ou le contraire), la magie des rythmes
utilisée pour cacher la pensée - et la cacher tellement,
qu'il passe encore pour un âne de génie, cet homme qui avait
 sa pensée dans les doigts,
et dont l'audace usait du masque des sentiments,
 des formes libres,
pour se créer lui-même. Si habile en sa cuisine,
 qu'elle pouvait être servie
tiède, aux heures de nostalgie et d'amertume,
chaude, aux grandes occasions de la vie triomphante,
et froide, quand seule la musique peut dire le vide du désespoir
d'être un piano et rien d'autre au monde.

________________

Henryk Siemiradzki
Chopin joue du piano pour le Prince Radziwill (1887)
...

A Piaf


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Jorge de Sena »»
 
Arte de Música (1968) »»
 
Italien »»
«« précédent /  Sommaire / suivant »»
________________


A Piaf
La Piaf


Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas
 du “Ça irá”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio
 ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se
 não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que
 adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida.
Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
o desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

Cette voix qui savait se faire canaille et rauque,
ou doucement lyrique et sentimentale,
ou tumultueusement qui criait aux saintes furies
 du « Ça ira »,
ou simplement récitait, mélo-méditative, des rêves perdus,
des amours d'une nuit laissant un souvenir glorieux,
ou ne laissant, après des années, qu'amertume et vide
 auprès de soi
dans les nuits désespérées de la chair triste qui ne peut
 se résigner
à n'avoir pas eu pleinement la chair qui l'a trahie,
cette voix reste enjoué et malheureuse, après la mort,
exactement comme la vie que d'autres continuent de vivre
aux yeux de ceux qui se font gorge et mots
pour dire non pas ce qu’ils ont toujours vu mais
 ce qu’ils supposent
dans cette ombre qui s'étire lumineuse au-dedans
des foules solitaires qui s'obstinent à résister
comme des valses mélodieuses et suburbaines
dans les ruelles de l'amour
et du monde.

Ceux qui ont ainsi la mort dans leur voix
et leur vie.
Qui comme elle ont perdu
toute joie et tout espoir
Eux seuls peuvent chanter avec cette science
le désespoir d'être un être humain
parmi les humains qui sont si faibles.

________________

Steven Ponsford
Edith Piaf (2013)
...

Nuage des auteurs (et quelques oeuvres)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant'Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (38) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (112) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eucanaã Ferraz (43) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (43) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (39) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (557) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poèmes inédits (363) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (15) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)