Considerações sobre a Morte e seus Hábitos


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Considerações sobre a Morte
e seus Hábitos
Considérations sur la Mort
et ses habitudes


Visitante insólita
A morte e seu consumo.
A morte e seu apuro.
O repuxo que ela traz, o soldo.

Desde antanho
concebemos seu vulto.
Desde antanho
a projetamos
no muro do que somos.

Limpa nos parece:
arroio, lebre.

O recuo não cabe
quando, adrede,
se cala.
Eis o aviso prévio.

Para que serve então
nossa vigília,
a escola, o calendário?

Que argumento a demove
do faro,
de unha aguçada,
do presságio?

Desde antanho
o aviso que ela dá
é de hora certa,
sem rádio, telefone
ou rezas.

O aviso é sem aviso,
recibo
de contas a pagar,
atavios, conceitos.
Está onde está.

E todos mudam de lotação
ou velocípede.
Todos mudam de cômodos.
O aluguel de nível.
Todos mudam de emprego.

Só a morte,
desde antanho,
não mudou,
não se converteu
ao rebanho.
Visiteuse inaccoutumée
La mort et son emprise.
La mort et ses tourments
L'attraction qu'elle exerce, le prix à payer.

Son visage, depuis toujours
nous le connaissons
Depuis toujours,
le projetons
contre le mur que nous sommes.

Pure, elle nous semble
ruisseau, lièvre.

Tout repli est inutile
lorsque, à dessein
elle s'arrête.
C'est là son préavis.

À quoi peuvent servir alors
notre vigilance,
l'école, le calendrier ?

Quel argument pourrait dissuader
son odorat si aiguisé,
sa griffe acérée,
son présage ?

Depuis toujours
le préavis qu'elle donne
arrive à point nommé,
sans radio, sans téléphone,
sans prières.

Le préavis est sans avis,
ni reçu
pour solde,
sans fioritures ni concepts.
Elle est là où elle est.

Et chacun change de braquet
ou de bicyclette.
Chacun change d'appartement.
Le loyer varie.
Chacun change d'emploi.

La mort seule,
depuis toujours,
ne change pas,
ne se conforme pas
au troupeau.
________________

Friedrich Wilhelm Theodor Heyser
Ophelia (1900)
...

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