Talvez


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Carlos Nejar »»
 
A casa dos arreios (1973) »»
 
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Talvez
Peut-être


Talvez o universo não exista.
Seja apenas a sombra fugitiva
da idéia de um universo; ou talvez
seja a perdida infância, o clarão
de alguma inteligência subitânea.
Sim, talvez não exista. Seja um medo
de haver mais testemunhos, relações
afetos exteriores ou temidos,
ou mero espectador de algum incêndio
havido e não sabido ou antecipado
para que reste cinza, cinza e vão.

Ou nada reste de um sistema,
uma harmonia cósmica, o pavor
de alguém nos assistir, estando ausente.
Não existe universo, nem o dia
ou a noite. Nós inventamos tudo,
inventamos a nós mesmos
e esquecemos a fórmula, o entrecho,
inventando o esquecimento.

Ou é invenção o pensamento,
uma argúcia engendrada pelos deuses
de se engendrarem juntos, nos pensando.
Ou o universo seja apenas quando
cessarmos de existir, desentocando
o mistério maior, aquele plasma
que rege a potestade, ou forma insone
de se viver, morrido, com o corpo
exilado num outro. O universo
se compõe, se dormimos. Ele existe.
Sobrevive tangível quando amamos
ou tontos despertamos. O universo
perturba, ferve nos corrói. E assoma.
Continuará depois que sepultarmos
essa comunicação, toda a vontade
e a matéria restrita ou desatenta.

E talvez o universo nos inventa.
Peut-être l'univers n'existe-t-il pas.
Il n'est peut-être que l'ombre fugitive
de l'idée d'un univers ; ou peut-être
est-il l'enfance perdue, l'éclair
soudain d'une quelconque intelligence.
Oui, peut-être n'existe-t-il pas. Étant
la peur de bien d'autres témoins, de liens
affectifs extérieurs ou redoutés, ou d'être
le simple spectateur d'un incendie déjà
déclaré qui ne soit ni connu ni anticipé,
ne laissant que cendres, cendres et vide.

Ou peut-être ne reste-t-il rien d'un système,
d'une harmonie cosmique, rien que
la crainte d'être observés, d'être absents.
Il n'existe aucun univers, ni le jour
ni la nuit. Nous avons tout inventé,
en nous inventant nous-mêmes
et nous avons oublié le lieu et la formule,
nous qui avons inventé l'oubli.

Ou peut-être la pensée est-elle une invention,
une subtilité engendrée par les dieux
afin de se perpétuer, en pensant à nous.
Ou peut-être l'univers n'existe-t-il que
lorsque nous cessons d'exister, dévoilant
le plus grand mystère, ce plasma
qui régie la puissance, ou une forme
insomniaque de se vivre, étant mort,
le corps exilé dans un autre. L'univers
se construit durant notre sommeil. Il existe.
et survit tangible lorsque nous aimons
ou nous réveillons hébétés. L'univers
nous trouble, bouillon corrosif. Il émerge.
et continuera d'émerger même après
l'inhumation de ce bulletin, toute volonté
et matière restreinte ou inattentive.

Et peut-être que l'univers nous invente.
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Domenico Ghirlandaio
Saint Jérôme en son étude (1480)
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