O Menino Grande


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O Menino Grande
Le Grand Enfant


Também eu, também eu,
joguei às escondidas, fiz baloiços,
tive bolas, berlindes, papagaios,
automóveis de corda, cavalinhos...

Depois cresci,
tornei-me do tamanho que hoje tenho;
os brinquedos perdi-os, os meus bibes
deixaram de servir-me.
Mas nem tudo se foi:
ficou-me,
dos tempos de menino
esta alegria ingénua
perante as coisas novas
e esta vontade de brincar.

Vida!,
não me venhas roubar o meu tesoiro:
não te importes que eu ria,
que eu salte como dantes.
E se eu riscar os muros
ou quebrar algum vidro
ralha, ralha comigo, mas de manso...

(Eu tinha um bibe azul...
Tinha berlindes,
tinha bolas, cavalos, papagaios...
A minha Mãe ralhava assim como quem beija...
E quantas vezes eu, só pra ouvi-la
ralhar, parti os vidros da janela
e desenhei bonecos na parede...)

Vida!, ralha também,
ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,
como se fosse ainda a minha Mãe…
Moi aussi, moi aussi,
j’ai joué à cache-cache, j’ai fait de la balançoire,
j’ai eu des ballons, des billes, des cerfs-volants,
des voitures à ressort, des petits chevaux…

Puis j’ai grandi,
je suis devenu de la taille que j’ai aujourd’hui ;
j’ai perdu mes jouets, mes vêtements d’enfant
ne m’allaient plus.
Mais tout n’a pas disparu :
il me reste,
de mon enfance,
cette joie naïve
devant les choses nouvelles
et cette envie de jouer.

Ma vie !,
ne viens pas me voler mon trésor :
ne t’offusque pas si je ris,
si je saute comme autrefois.
Et si j'ai crayonné sur les murs
ou si j'ai brisé les vitres,
gronde-moi, gronde-moi, mais sois tendre…

(J’avais un biberon bleu…
J’avais des billes,
j’avais ballons, chevaux, cerfs-volants…
Ma Mère me grondait comme on embrasse…
Et combien de fois, juste pour l’entendre
me gronder, ai-je brisé les vitres de la fenêtre
et dessiné des bonhommes sur le mur…)

Ma vie !, gronde-moi aussi,
gronde-moi si je fais des bêtises, mais sois tendre,
comme l'était ma Mère, autrefois…
________________

Juan Gris
Arlequin séduit (1923)
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