Os dois estranhos


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Lêdo Ivo »»
 
Curral de Peixe (1995) »»
 
Italien »»
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Os dois estranhos
Les deux étrangers


Todos os amantes terminam separados.
O amor é um barco que veleja
a maré que se levanta quando a balsa fende a água
  unida na laguna que suga os clarões da terra
o avanço de uma hélice na noite estrelada.
Aos que viram o dia abrir-se como a cauda de um pavão
ou atravessam a tarde coberta de escamas
aos que ficam abraçados em camas sempre estreitas
e partilham a respiração do êxtase ouvindo uma torneira
  gotejar na sombra
está reservada a separação
como uma tatuagem que o tempo inscreve na anca
  bem-amada.
A porta antes fechada se abre para sempre
para que os corpos se cruzem e não se reconheçam.
Amor é escuridão. E quando a luz se acende
somos dois estranhos que evitam olhar-se.

Tous les amoureux finissent par se séparer.
L'amour est une barque déployant ses voiles
à marée haute lorsque la coque fend les eaux unies de la
  lagune qui suce les clartés de la terre,
c'est l'avancée d'une hélice dans la nuit étoilée.
À ceux qui ont vu le jour se déployer comme la roue d'un paon
ou qui traversent le soir couvert d'écailles,
à ceux qui restent enlacés dans des lits toujours étroits
et qui partagent le souffle de l'extase en écoutant
  un robinet goutter dans l'ombre
est réservée la séparation
comme un tatouage que le temps inscrit sur la
  hanche bien-aimée.
La porte fermée autrefois s'ouvre pour toujours
afin que les corps se croisent et ne se reconnaissent plus.
L'amour est obscurité. Et quand s'allume la lumière
Nous devenons deux étrangers qui évitent de se regarder.

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Edward Hopper
Excursion en philosophie (1959)

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