A poesia se esfrega nos seres e nas cousas


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Adalgisa Nery »»
 
Mundos Oscilantes (1962) »»
 
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A poesia se esfrega nos seres e nas cousas
La poésie se frotte aux êtres et aux choses


Nunca sentiste uma força melodiosa
Cercando tudo o que teus olhos vêem,
Um misto de tristeza numa paisagem grandiosa
Ou um grito de alegria na morte de um ser
  que queres bem?

Nunca sentiste nostalgia na essência das cousas perdidas
Deparando com um campo devoluto
Semelhante a uma viagem esquecida?

Num circo, nunca se apoderou de ti um amargor sutil
Vendo animais amestrados
E logo depois te mostrarem
Seres humanos imitando um réptil?

Nunca reparaste na beleza de uma estrada
Cortando as carnes do solo
Para unir carinhosamente
Todos os homens, de um a outro pólo?

Nunca te empolgaste diante de um avião,
Olhando uma locomotiva, a quilha de um navio,
Ou de qualquer outra invenção?

Nunca sentiste esta força que te envolve desde o brilho
 do dia
Ao mistério da noite,
Na extensão da tua dor
E na delícia da tua alegria?

Pois então, faz de teus olhos o cume da mais alta
 montanha
Para que vejas com toda a amplitude
A grandeza infindável da poesia que não percebes
E que é tamanha
N'as-tu jamais senti cette force mélodieuse
imprégnant tout ce que voient tes yeux,
mélange de tristesse devant un paysage grandiose
ou cri d'allégresse mêlé à la mort d'un être
  qui fut bien aimé ?

N'as-tu jamais senti de nostalgie à l'idée des choses
perdues en découvrant un champ désolé
qui réveille en toi l'image d'un voyage oublié ?

Au cirque, n'as-tu jamais été saisi par une subtile
amertume à la vue d'animaux dressés
puis au spectacle de ces êtres
humains imitant un reptile ?

N'as-tu jamais été sidéré par la beauté d'une route
découpant les chairs d'un sol
afin d'unir avec tendresse
tous les hommes, d'un pôle à l'autre ?

N'as-tu jamais été impressionné par un avion,
en voyant une locomotive, la quille d'un navire
ou devant toute autre invention ?

N'as-tu jamais senti cette force qui t'enveloppe à la
  clarté du jour
dans le mystère de la nuit,
pris par l'intensité de ta douleur
ou les délices de ta joie ?

Et aussi fais que tes yeux soient la cime de la plus
  haute montagne
afin d'y contempler dans son entière étendue
la grandeur sans fin d'une poésie jusqu'alors imperceptible
et qui est immense.
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Marc Chagall
Cirque (1967)
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