Curtume


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Curtume
Tannée


Nenhum poema libertário
libera a tarde do gigantesco inútil
derramado em copos de cinza
sobre as paredes sujas.

Nenhum poema inflamado
desinflamaria o pus da paisagem mutilada
pelas chaminés vomitando fuligem
sem parar.

Nenhum poema possível
possibilita a transmutação do nada
curvado sobre cada uma das máquinas
em toques secos.

Nenhum poema pirado
pararia a voragem estúpida
gerando monstros coloridos
em papel couché.

Nenhum poema solto
soltaria outra vez as pandorgas perdidas.
Preso na gaveta, solto no vento: nenhum poema.
Nem mesmo este.
Aucun poème libertaire
le soir ne libère de la gigantesque inutilité
répandue en des verres de cendres
sur les murs sales.

Aucun poème incendiaire
ne saurait nettoyer le pus du paysage mutilé
par les cheminées crachant de la suie
sans fin.

Aucun poème possible
ne rendra possible la transmutation du néant
courbé sur chacune des machines
au toucher aride.

Aucun poème pirate
ne mettra fin à cette stupide voracité
générant des monstres colorés
sur papier couché.

Aucun poème délié
ne délivrera encore une fois les pandores perdus.
Coincé dans un tiroir, livré au vent : aucun poème.
Pas même celui-là.
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Gerhard Richter
Glace (2) (1989)
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Cantiga para ninar insones


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Cantiga para ninar insones
Berceuse pour insomniaques


Quieta, carência minha:
não pinceles assim, em ouro,
o que no barro é feito. Não
desvendes metáforas complexas
onde o verbo é quase sempre raso
e pouco. Não, não te atices
assim, toda a fim, outra vez,
de elaborar torturas acetinadas
sobre mesquinharias de algodão.

Não te bastou, então, toda essa estrada?

Quieta, quieta: silencia.
Como as tevês antigas, disciplinada,
procura ver em preto, em branco,
em calmaria. Não assim, despudorada,
policrômica, out-dooresca. Respira,
respira fundo, conta até dez.
Não telefona. Não fantasia.

Sossega. Chega de enganos.

Recolhe ardores indiscriminados,
os arrebatamentos, controla.
Controla-te, por favor, carência minha,
pois urge sublimar a ânsia do sublime.
Tenta, tenta. Ou toma um mogadom,
um valium, trinta miligramas (e três,
se for preciso). E dorme, dorme
bruta, dorme profundamente, dorme
sem sonho algum
enquanto chove dentro e fora a chuva fria.

Amanhã tem mais.
Ma douleur, tiens-toi tranquille :
ne peins pas avec de l'or
ce qui est fait d'argile.
Ne convoques pas de métaphores complexes
où le verbe est presque toujours peu
de choses. Non, ne tisonne pas ainsi
le feu, encore et encore,
afin d'élaborer des tortures
de satin sur la mesquinerie de la ouate.
 
Cette route suivie ne te suffisait-elle pas ?
 
Tiens toi tranquille et fais silence.
Avec la discipline d'une vieille télé,
essaie de voir en noir et en blanc,
dans le calme. Et non comme tu le fais, sans vergogne,
polychrome, et hors-sol. Respire,
respire profondément, compte jusqu'à dix.
Ne téléphone pas. Ne fantasme pas.
 
Reste tranquille. Plus de faux-semblants.
 
Recueille tes ardeurs sans distinction,
Contrôle tes ravissements.
Contrôle-toi, s'il te plaît, ô ma douleur,
car elle doit être sublimée la passion du sublime.
Essaie, essaie. Ou prend un mogadon,
un valium, trente milligrammes (et trois,
si nécessaire). Et endors-toi, tombe
abrupt dans un sommeil profond, dors
sans aucun rêve
tandis qu'au dehors et au dedans une pluie froide se déverse.
 
Demain est un autre jour.
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Bruno Munari
Negatif-positif (1991)
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Amor, terreno vedado...


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Amor, terreno vedado...
Amour, territoire interdit...


amor, terreno vedado
para os passos que tentei

amor, espaço minado
cheio de cacos de vidro

amor, espinho cravado
que ninguém tirou de mim

amor, espelho quebrado
e sete anos de azar
amour, territoire interdit
aux sentiers que j'ai frayés

amour, espace miné
empli d'éclats de verre

amour, épine enfoncée
que personne ne m'a ôtée

amour, miroir brisé
et sept ans de malheur
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Goa
Les cinq saisons (2021)
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Um dia, de porre...


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Um dia, de porre...
Un jour, bien qu'étant ivre...


um dia, de porre,
ainda vou te fazer uma declaração de amor
falando coisas como só-penso-em-você
ou ando-louco-de-paixão ou não importa

mas um dia, de porre ou cara limpa,
fumado ou cheirado até a última carreira
ainda vou te fazer uma declaração de amor
tão completamente descarada
que no dia seguinte a gente se olhe de lado
meio rindo baixinho
que loucura, hein cara?
e nunca mais toque no assunto

mas um dia, ah um dia, qualquer dia
vou dar um escândalo no bar para que todos ouçam
e você morra de vergonha da minha grande baixeza
vou te pegar de surpresa, dizer tolices meladas
que capricho ou ilusão ousariam publicar
vou pedir mais copo, acender a última baga,
cheirar a derradeira e berrar frenético

que não têm conta as punhetas que bati por você
que não têm conta as cartas de amor que não mandei
que não têm conta os cigarros e as insônias
e as caminhadas loucas e as flores que joguei no lixo
e essas coisas tontas que a gente faz
quando anda cego de amor ou de tesão,
nunca se sabe

direi nesse dia qualquer, então,
quando te pegar de jeito no meio da praça
no canto do bar, na cama do apartamento
na porta de entrada ou saída, que importa?
e de porre ou não, prometo,
ainda vou te fazer uma declaração de amor
tão completa e tão esplendida
e tão absoluta e tão definitiva
e tão [desesperada e inutilmente/inútil e desespera-
  damente] autossuficiente
que dispensará qualquer resposta.

depois, darei um suspiro de alívio
e nunca mais te olharei na cara.
Un jour, bien qu'étant ivre,
Je te ferai une déclaration d'amour
je te dirai des choses comme je-ne-pense-qu'à-toi.
ou je-suis-fou-de-passion ou n'importe quoi d'autre

mais un jour, que je sois ivre ou non
allumé ou défoncé jusqu'à la moelle
Je te ferai quand même une déclaration d'amour
si totalement éhontée
que le jour suivant, nous nous regarderons de travers.
riant jaune à moitié
quelle folie, hein bonhomme ?
et nous n'aborderons plus jamais le sujet

mais un jour, ah un jour, n'importe quel jour
Je ferai un esclandre au bar pour que tous puissent entendre
et tu mourras de honte devant ma grande bassesse.
Je te prendrai par surprise, te disant des âneries mielleuses
Que le caprice ou l'illusion n'oserait rendre public
Je demanderai un autre verre, j'allumerai la dernière baie.
et gonflé à bloc, je te crierai avec frénésie

n'avoir jamais compté les fois où je me suis branlé pour toi.
jamais compté les lettres d'amour que je n'ai pas envoyées.
jamais compté les cigarettes et les insomnies
les promenades folles et les fleurs que j'ai jetées à la poubelle
et toutes ces choses idiotes que nous faisons
quand nous sommes aveuglés par l'amour ou le désir,
on ne sait jamais

ce que je pourrais te dire aussi, un de ces jours,
lorsque je te prends par surprise au milieu de la place,
au coin du bar, dans le lit de l'appartement,
à la porte d'entrée ou à la porte de sortie, qui s'en soucie ?
et ivre ou non, je te promets
que je te ferai quand même une déclaration d'amour
si complète, si splendide,
si absolue, si définitive
et si [désespérée et inutilement/inutile et désespérément]
  autosuffisante
qu'elle se dispensera de toute réponse.

alors je pousserai un soupir de soulagement.
et ne pourrai plus jamais te regarder en face.
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Maciej Cieśla
Diable ivre (2020)
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Revejo velhos cadernos...


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Revejo velhos cadernos...
Je révise de vieux carnets...


Revejo velhos cadernos
anotações de sonhos
saturno, crescentes
intento
invento
e de cada vez sei
sempre
que não é aqui.

Os amigos perdidos
os cabelos perdidos
os olhos perdidos.

Nenhuma crença
nenhum motivo bom
ou mesmo mau
para seguir ou desistir.

A vida parada
julho, agosto
as estradas poeirentas
o vento norte:
o sono de minha avó
na cadeira de balanço.

A cidade deserta
setembro, outubro
o reboco caindo
o vento sul:
o xadrez no plástico da mesa
com flores vermelhas e amarelas.

Um cão late
o relógio bate
a poeira cobre os móveis
e os rostos dos parentes.
Caminhões que vão para lugar nenhum
cartas que não chegam
as flores descoradas de plástico
na luz dura da sala.

Novembro, dezembro
os caminhos que não andei
os amores que não tive
os sonhos que continuo mantendo
pela simples razão de estar vivo.

Aí, Deus
dai-me outra vez o sangue na veia
novamente o coração em descompasso
as visões de antes, o verão ardente
não este mormaço seco
o sangue gelado de agora
e nenhum arco-íris sob os olhos.

Quero de volta meu riso
quero de volta meu passo:
quebrarei todas as cristaleiras da casa
ou me transformarei para sempre
numa flor de plástico
inútil, desbotada, coberta de poeira...
Je révise de vieux carnets
annotés de rêves
saturne, croissants de lune
j'expérimente
j'invente
et à chaque fois je sais
toujours
qu'il n'en est pas ainsi.
 
Les amis perdus
les cheveux perdus
les regards perdus
 
Aucune conviction
aucune motivation qu'elle
soit bonne ou mauvaise
à poursuivre ou dénoncer.
 
La vie s'arrête
juillet, août
les routes poussiéreuses
le vent du nord :
le sommeil de grand-mère
dans sa chaise à bascule.
 
La ville déserte
septembre, octobre
le plâtre qui tombe
le vent du sud
la nappe à carreaux de la table
avec ses fleurs rouges et jaunes.
 
Un chien qui glapit
l'horloge qui bat
la poussière recouvrant les meubles
et le visage de mes parents.
Des camions qui ne vont nulle part
des lettres qui n'arrivent pas
les fleurs décolorées en plastique
dans la lumière crue de la salle.
 
Novembre, décembre
les chemins que je n'ai pas fréquentés
les amours que je n'ai pas vécus
les rêves que je continue d'entretenir
pour la simple raison que je suis en vie.
 
Ah, mon Dieu
mets une fois encore du sang dans mes veines
et mon cœur à nouveau en chamade
les visions d'antan, l'été qui brûle
non ce temps lourd et sec
le sang glacé d'aujourd'hui
sans aucun arc-en-ciel pour mes yeux.
 
Je veux retrouver mes rires
je veux revenir dans mes pas
je voudrais briser toutes les vitres de ma vie
ou me transformer pour toujours
en cette fleur de plastique
inutile, délavée, couverte de poussière...
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Corrado Bonomi
Nous sommes des fleurs (2021)
...

Nuage des auteurs (et quelques oeuvres)

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