Só faço verso bem-feito


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Só faço verso bem-feito
Seuls mes vers sont parfaits


Nada de nuvens, vamos ao ponto:
o Príncipe dos Poetas está morto.

Nunca esteve tão só,
nunca esteve tão sereno.

Morreu muito velho,
morreu quase eterno.

Que os anjos o guardem.
Que vá para o inferno!

Era eu, era meu mano,
era meu mano, era eu,

tanto verso nós cantava,
hoje meu mano morreu.

Elegias.
Elogios.

O Príncipe dos Poetas está frouxo, frio.
Está como sempre esteve:
imóvel como um poste.

E, como nunca antes: aéreo. Mais
que isso, marítimo. Repara:

tem ares de quem navega a todo
pano um seu navio-fantasma.

Morreu há pouco
e cheira já a mofo.

Fechara apenas um olho e já
o dente silencioso, anônimo

do vizinho comia-lhe
o cetro, as insígnias.

Sobre a fronte não lhe pousaram
sequer um louro.

Logo sua biblioteca não será senão
estorvo.

Ele, no entanto, parece em paz, livre
de livros, aduladores e críticos.

Nem poeta, nem príncipe, pode-se dizer
que, morto, acabou encontrando

a decantada página em branco
e que se fez dela esposo. Mal

terminado o baile das bodas,
obra e vida não serão mais

que tabula rasa,
fábula

insignificante de um peso
morto.
Pas un nuage, allons droit au but :
le Prince des Poètes est mort.

Il n'a jamais été aussi seul,
il n'a jamais été aussi serein.

Il est mort très vieux,
il est mort presque éternel.

Que le garde les anges,
Qu'il aille au diable !

C'était moi, c'était mon frère,
c'était mon frère, c'était moi,

nous avons chanté tant de vers,
mon frère est mort, aujourd'hui.

Élégies
Éloges

Le Prince des Poètes est flasque, froid.
Il est comme il a toujours été :
immobile comme un poteau.

Et, comme jamais auparavant : aérien.
Plus encore, maritime. Vois :

on dirait qu'il vogue toutes voiles
dehors sur son navire fantôme.

Il est mort, il y a peu
et il sent déjà le moisi.

Il n'avait pas fermé les yeux que déjà
la dent silencieuse et anonyme

de son voisin commençait de ronger
son sceptre, ses flambeaux.

Ne fut pas même posé sur son front
une couronne de laurier.

Sa bibliothèque ne sera bientôt plus
un obstacle.

Lui, cependant, semble apaisé, libéré
des livres, des flatteurs et des critiques.

Ni poète ni prince, on peut dire
que, mort, il a trouvé enfin

la page blanche tant vantée
et s'en est fait l'époux. Dès

le bal nuptial terminé,
son œuvre et sa vie ne seront plus

qu'une tabula rasa,
le poids

mort d'une insignifiante.
fable.
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Portrait de Camões
peint à Goa (1581)
...

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