De novo, o duelo...


Nom :
 
Recueil :
Source :
 
Autre traduction :
Nuno Rocha Morais »»
 
Poèmes inédits »»
nunorochamorais.blogspot.com (janvier 2023) »»
 
Italien »»
«« précédent / Sommaire / suivant »»
________________


De novo, o duelo...
De nouveau, le duel...


De novo, o duelo que não poderás ganhar,
A laceração, e de novo há pedaços
De um coração insípido
Que se esmagam com a chuva contra o vidro.
Mas a verdade é que não chove
E a verdade é que no céu
As estrelas retomaram a sua engrenagem.
Já consegues apreciar o funcionamento 
Da gramática alemã, ou qualquer outra.
Que te preste.
O sono deixa-se convidar,
Como um animal dócil,
E os sonhos dissolvem-se sem rasto, sem memória –
O mesmo é dizer, sem consequências.
Redescobres por fim a maravilha
De uma ostra sem pérola.
O mundo que era real e se converteu em miragem,
Dolorosa miragem é novamente real
Nos seus modos, nos seus ritmos,
E em breve virá esse vazio que é a aceitação,
O melhor que muito amor deixa,
Uma indiferença que, reconhecida,
É quase euforia.
A tua vida será quase tua outra vez.
De nouveau, le duel que tu ne pourras gagner,
La déchirure, et de nouveau les morceaux
D'un cœur insipide
Qui se fracassent avec la pluie contre la vitre.
Mais la vérité est qu'il ne pleut pas
Et la vérité est que dans le ciel
Les étoiles ont retrouvé leur engrenage.
Déjà tu peux apprécier le fonctionnement
De la grammaire allemande, ou de quelque autre.
Que cela te serve.
Le sommeil se laisse inviter,
Comme un animal docile,
Et les rêves se dissolvent sans trace, sans mémoire –
Autrement dit, sans conséquences.
Tu redécouvres enfin la merveille
D'une huître sans perle.
Le monde qui était réel et s'était converti en mirage
Douloureux mirage, est à nouveau réel
En ses modes, en ses rythmes,
Et bientôt viendra ce vide qu'est l'acceptation,
Ce mieux que beaucoup d'amour délaisse,
Une indifférence qui, reconnue,
est presque une euphorie.
Ta vie sera presque ta vie une fois encore.

________________

Stare, Ferle
Torso (2018)
...

Frente ao mar...


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Casimiro de Brito »»
 
Poemas da Solidão Imperfeita (1958) »»
 
Italien »»
«« précédent /  Sommaire / suivant »»
________________


Frente ao mar...
Face à l'océan...


Frente ao mar
meu peito ardente e nu de marinheiro pelo sangue.

Nas veias o fervilhar feliz
de um milhão de ondas devastadoras.

Nos meus olhos libertos e saudosos
espelhando a minha dor imensa
o abraço líquido que me une a ti

ó MAR
pagão de olhar luminoso e belo.

Recebe ó MAR
este ribeiro de sofrimento que para ti corre
e contigo se confunde

ó MAR que eu amo
e a quem me ligo
pelo drama de não ser só teu ...
Face à l'océan
ma poitrine brûlante et nue de marin sanguinaire.
 
Dans mes veines, l'heureux bouillonnement
d'un million de vagues dévastatrices.
 
Dans mes yeux libres et nostalgiques
où se reflète mon immense douleur
l'étreinte liquide qui m'unit à toi.
 
OCÉAN
ô barbare aux beaux yeux lumineux.
 
Reçoit OCÉAN
ce flot de souffrance qui coule vers toi
et avec toi se confond
 
OCÉAN que j'aime
et à qui je suis lié,
drame de ne pas être seulement toi...
________________

Joaquín Sorolla
Brise-lames, San Sebastian (1918)
...

Deitado na areia


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Casimiro de Brito »»
 
Poemas da Solidão Imperfeita (1958) »»
 
Italien »»
«« précédent /  Sommaire / suivant »»
________________


Deitado na areia
Allongé sur le sable


Horas e horas deitado na areia caído
Na areia
Ou por algum braço arremessado. Pouco a pouco
Deixei de sentir os grãos finíssimos
Colarem-se-me à pele. Deixei de ver
O céu que meus olhos olhavam.
As primeiras ondas que me tocaram os pés
Ainda as senti — bocas minúsculas
Bebendo o meu sangue silencioso —
Mas as segundas já não eram frias nem quentes
  já não eram
Suaves nem ríspidas já não possuíam
Lábios nem dentes. E nada sei
Das seguintes como nada já sabia
Da areia nem do sal nem dos bichos que passavam
Por cima do meu corpo depois de terem passado
Pelo corpo da areia.
Durante algum tempo durante a rigorosa eternidade
De um momento
Foi como se eu fosse também areia mar e sol
E talvez eu tenha sido
Areia sol e mar. O resto
É vento.
Heure après heure allongé sur le sable tombé
Dans le sable
Ou par quelque bras lancé. Peu à peu
J'ai cessé de sentir les infimes grains
Qui se colle à ma peau. J'ai cessé de voir
Le ciel que mes yeux regardent.
Les premières ondes qui m'ont touché les pieds
Je les sens encore — bouches minuscules
Buvant mon sang silencieux —
Mais les secondes déjà n'étaient plus ni froides ni chaudes
  déjà n'étaient
Plus douceur ou dureté déjà n'étaient plus de mise
Ni lèvres ni dents. Et je ne sais rien
Des suivantes comme je n'ai jamais rien su
Du sable ni du sel, des bêtes qui sont passées
Par-dessus mon corps après qu'elles soient passés
Par le corps du sable.
Durant quelque temps, durant la rigoureuse éternité
D'un moment
Ce fut comme si j'étais sable aussi, et mer et soleil.
Et peut-être étais-je alors
Sable soleil et mer. Le reste
Étant du vent.
________________

Albert Marquet
Le Pilat, la plage en été (1935)
...

Faz anos navego o incerto...


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Caio Fernando Abreu »»
 
Poesias nunca publicadas de... (2012) - Sem data »»
 
Italien »»
«« précédent /  Sommaire / suivant »»
________________


Faz anos navego o incerto...
Depuis longtemps, je navigue, incertain...


Faz anos navego o incerto.
Não há roteiros nem portos.
Os mares são de enganos
e o prévio medo dos rochedos
nos prende em falsas calmarias.
As ilhas no horizonte, miragens verdes.
Eu não queria nada além
de olhar estrelas
como quem nada sabe
para trocar palavras, quem sabe um toque
com o surdo camarote ao lado
mas tenho medo do navio fantasma
perdido em pontas sobre o tombadilho
dou a face e forma a vultos embaçados.
A lua cheia diminui a cada dia.
Não há respostas.
Queria só um amigo onde pudesse jogar o coração
como uma âncora.
Depuis longtemps, je navigue, incertain.
Il n'est point de routes ni de ports.
Les mers sont trompeuses
et la peur première des roches
nous tient dans une fausse accalmie.
Îles à l'horizon, mirages verts.
Je ne voulais rien si ce n'est
regarder les étoiles
comme celui qui ne sait même plus
échanger quelques mots, ou toquer à la porte
de la loge restée sourde à côté
mais j'ai peur du vaisseau fantôme
perdu sur le pont du gaillard-avant.
Je donne visage et forme à des figures embrouillées.
La pleine lune s'amenuise chaque jour.
Il n'y a pas de réponses.
Je ne voulais qu'un ami où je puisse jeter mon cœur
comme une ancre.
________________

Claude Monet
Récifs à Port-Goulphar, Belle Île (1886)
...

Escureci...


Nom :
 
Recueil :
 
Autre traduction :
Caio Fernando Abreu »»
 
Poesias nunca publicadas de... (2012) - Sem data »»
 
Italien »»
«« précédent /  Sommaire / suivant »»
________________


Escureci...
Je m'assombris...


Escureci. Me tornei feio.
Às vezes já não tenho esperanças
e sei que quanto mais vivo
mais escuro fico.
Tive ou tiveram culpa? Fiz
fizeram de mim? Hoje
essas questões não importam.
Estou mais turvo que o ar
que envolve esta cidade doente, estou
mais doente que a cidade hoje. E
infinitamente mais pobre.
Je m'assombris. Je deviens laid.
Parfois, je n'ai plus d'espoir
et je sais que plus je vis
plus je deviens sombre.
Est-ce ma faute ou la leur ? Qu'ai-je fait,
que m'ont-ils fait ? Aujourd'hui
ces questions sont sans importance.
Je suis plus trouble que l'air
qui enveloppe cette ville malade, je suis
plus malade que la ville aujourd'hui. Et
infiniment plus pauvre.
________________

Mario Sironi
Banlieue avec camion (1920)
...

Nuage des auteurs (et quelques oeuvres)

A. M. Pires Cabral (44) Adalgisa Nery (43) Adolfo Casais Monteiro (36) Adriane Garcia (40) Adão Ventura (41) Adélia Prado (40) Affonso Romano de Sant'Anna (41) Al Berto (38) Albano Martins (41) Alberto Pimenta (40) Alexandre O'Neill (29) Ana Cristina Cesar (38) Ana Elisa Ribeiro (40) Ana Hatherly (43) Ana Luísa Amaral (40) Ana Martins Marques (48) Antonio Brasileiro (41) Antonio Osorio (42) António Gedeão (37) António Ramos Rosa (41) Antônio Cícero (40) Augusto dos Anjos (50) Caio Fernando Abreu (40) Carlos Drummond de Andrade (43) Carlos Machado (112) Carlos Nejar (42) Casimiro de Brito (40) Cassiano Ricardo (40) Cecília Meireles (37) Conceição Evaristo (33) Daniel Faria (40) Dante Milano (33) David Mourão-Ferreira (40) Donizete Galvão (41) Eucanaã Ferraz (43) Eugénio de Andrade (34) Fernando Assis Pacheco (42) Ferreira Gullar (40) Fiama Hasse Pais Brandão (38) Francisco Carvalho (40) Galeria (30) Gastão Cruz (40) Gilberto Nable (48) Hilda Hilst (41) Iacyr Anderson Freitas (41) Inês Lourenço (40) Jorge Sousa Braga (40) Jorge de Sena (40) José Eduardo Degrazia (40) José Gomes Ferreira (41) José Luís Peixoto (44) José Paulo Paes (9) José Régio (41) José Saramago (40) José Tolentino de Mendonça (42) João Cabral de Melo Neto (43) João Guimarães Rosa (33) João Luís Barreto Guimarães (40) Luis Filipe Castro Mendes (40) Lêdo Ivo (33) Manoel de Barros (36) Manuel Alegre (42) Manuel António Pina (33) Manuel Bandeira (39) Manuel de Freitas (41) Marina Colasanti (38) Mario Quintana (38) Micheliny Verunschk (40) Miguel Torga (32) Murilo Mendes (32) Mário Cesariny (34) Narlan Matos (85) Nuno Júdice (33) Nuno Rocha Morais (566) Orides Fontela (43) Paulo Leminski (43) Pedro Mexia (40) Poemas Sociais (30) Poèmes inédits (372) Reinaldo Ferreira (40) Ronaldo Costa Fernandes (42) Rui Knopfli (43) Rui Pires Cabral (44) Ruy Belo (29) Ruy Espinheira Filho (43) Ruy Proença (48) Sebastião da Gama (45) Sophia de Mello Breyner Andresen (33) Thiago de Mello (38) Ultimos Poemas (103) Vasco Graça Moura (40) Vinícius de Moraes (34)