Poeta no supermercado


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Fernando Assis Pacheco »»
 
Cuidar dos Vivos (1963) »»
 
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Poeta no supermercado
Le poète au supermarché


I
Indignar-me é o meu signo diário.
Abrir janelas. Caminhar sobre espadas.
Parar a meio de uma página,
erguer-me da cadeira, indignar-me
é o meu signo diário.

Há países em que se espera
que o homem deixe crescer as patas
da frente, e coma erva, e leve
uma canga minhota como os bois.
E há os poetas que perdoam. Desliza
o mundo, sempre estão bem com ele.
Ou não se apercebem: tanta coisa
para olhar em tão pouco tempo,
a vida tão fugaz, e tanta morte...
Mas a comida esbarra contra os dentes,
digo-vos que um dia acabareis tremendo,
teimar, correr, suar, quebrar os vidros
(indignar-me) é o meu signo diário.


II
Um homem tem que viver.
e tu vê lá não te fiques
- um homem tem que viver
com um pé na Primavera.

Tem que viver
cheio de luz. Saber
um dia com uma saudade burra
dizer adeus a tudo isto.
Um homem (um barco) até ao fim da noite
cantará coisas, irá nadando
por dentro da sua alegria.

Cheio de luz - como um sol.
Beberá na boca da amada.
Fará um filho.
Versos.
Será assaltado pelo mundo.
Caminhará no meio dos desastres,
no meio de mistérios e imprecisões.
Engolirá fogo.

Palavra,
um homem tem que ser
prodigioso.
Porque é arriscado ser-se um homem.
É tão difícil, é
(com a precariedade de todos os nomes)
o começo apenas.
I
M'indigner est mon lot quotidien.
Ouvrir les fenêtres. Marcher sur des braises.
M'arrêter au milieu d'une page,
me lever de ma chaise, m'indigner
est mon lot quotidien.

Il y a des pays où l'on attend
de l'homme qu'il laisse pousser ses pattes
avant, qu'il mange de l'herbe et porte
un joug comme les bœufs du Minho.
Et il y a des poètes qui pardonnent. Défile
le monde, et ils sont toujours en paix avec lui.
Ou ils ne s'en rendent pas compte : il y a tant
de choses à voir en si peu de temps,
la vie est si brève, et il y a tant de mort…
Mais la nourriture se heurte aux dents,
je vous dis qu'un jour tu finiras par trembler,
s'obstiner, courir, transpirer, briser les vitres
(m'indigner) est mon lot quotidien.


II
Un homme doit vivre.
Et tu le vois, rien ne persiste
– un homme doit vivre
pied tourné vers le printemps.

Il doit vivre
empli de lumière. Savoir
un jour, avec une nostalgie un peu
sotte, dire adieu à tout ça.
Un homme (un navire) jusqu'au bout de la nuit
chantera ces choses-là, ira nageant
dans sa propre allégresse.

Empli de lumière, comme un soleil.
Il boira aux lèvres de l'aimée
Fera un enfant.
Des couplets.
Sera assailli par le monde.
Cheminera au milieu des désastres,
parmi les imprécisions, et les mystères
Il affrontera le feu.

Je vous le dis,
un homme doit être
prodigieux.
Car c'est risqué d'être un homme.
Très difficile, et ce n'est
(avec la précarité de tous les noms)
que le commencement.
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Gino Severini
Le joueur d'accordéon (1919)
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