Lumiar, Lisboa: Um melro na rampa da Televisão


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Fernando Assis Pacheco »»
 
Memórias do contencioso (1980) »»
 
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Lumiar, Lisboa:
Um melro na rampa da Televisão
Lumiar, Lisbonne :
Un merle sur la rampe de la télévision


Um melro na rampa da Televisão
um melro cantava e eu que chegava
parei-me a ouvi-lo com aqueles garganteios à Elisabeth
 Schwarzkopf
invejoso daqueles agudos sustentados entre folhas
e com o sol do Verão a dar na tromba
como uma pedra

eu ou seja este bípede vestindo camisa Lacoste
 de crocodilo ao peito
envolto em águas tristes herdadas dos quatro primeiros
 impérios
que prefiro as salas de trás nas casas de trás das cidades
que estão para lá dos rios e das matas de medronheiros
onde ainda tento acender um ou outro amigo
com os fusíveis trazidos queimados de África
incapaz por todas as razões expostas
de colar suficientemente à melopeia do verso heróico

um melro cantava e eu que parava
pego na esferográfica rasgo metade de um sobrescrito
cedo à «inspiração» para anotar o dístico há mais de
 um ano
tentando a sua vez de ser um fecho aceitável

o mal de muita gente é que anda aos gritos
o mal de alguns de nós é já a esgana
Un merle sur la rampe de la Télévision
un merle chantait et moi j’arrivais
je m’arrêtais pour écouter ses gargouillis à la Élisabeth
  Schwarzkopf
envieux de ses aigus soutenus parmi des feuilles
avec le soleil d’été qui me frappait en pleine figure
comme une pierre

moi c'est-à-dire ce bipède vêtu d’une chemise Lacoste,
  crocodile au cœur
cerné par les eaux tristes hérités des quatre premiers
  empires préférant
les arrière-cuisines des maisons de banlieues des cités
qui sont de l’autre côté des fleuves et des taillis d’arbousiers
où j’essaie encore d’enflammer quelques amis
avec mes fusibles carbonisés rapportés d’Afrique
incapable pour toutes les raisons exposées
de coller suffisamment à la mélopée du vers héroïque

un merle chantait et moi planté là
je prends mon stylo je déchire en deux une enveloppe
je cède à « l’inspiration » pour noter le distique qui depuis
  plus d’un an
essaie d’être à son tour une chute acceptable.

le mal de tant de gens, c’est qu’ils marchent aux cris
le mal de certains d’entre nous, est déjà un étranglement.
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Beate Endrikat
La visite du merle (2017)
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