Um Campo Batido pela Brisa


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Fernando Assis Pacheco »»
 
A Musa Irregular (1991) »»
 
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Um Campo Batido pela Brisa
Champ balayé par la brise


A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminando, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.
Ta nudité me trouble.

Il y a des jours où ta nudité
est comme un bateau qui soudain heurte la barre.
Comme une tempête. Ou comme
certains mots qu'on n'a pas encore inventés,
certaines positions des doigts sur la guitare
que le guitariste ne connaissait pas.

Ta nudité me trouble. Elle ouvre mon corps
à un côté mystérieux et fragile.
Elle détend mon corps. Puis l'écourte et lui enlève
ses contours, son poids. Elle détruit mon corps.
Ta nudité est une douce
violence, un champ balayé par la brise
au mois de janvier, quand les fleurs montent
du ventre de la terre fécondée.

Je me déshonore, j'écris, je fais des choses
avec le vocabulaire de ta nudité.
J'ai « une pensée dénudée » ;
maturation ; hautes combustions.
Main dans la main avec toi, j'entre en moi-même
comme autrefois dans la piscine
ces lépreux pleins d'espoir.
Et parfois, il arrive que ta nudité soit une fusée
que je lance d'une main tremblante et maladroite
et qui explose et remplit ma chair
de transparence.

Sept longs jours par semaine,
trente jours qui dure un mois,
je marche courageux et sans fard,
illuminé, sûr de moi, harmonieux.
Et d'autres fois, il arrive que je sois : inquiet.
Fragile.
Violenté.

Pour que je me reconstruise,
ta nudité doit bousculer mes fondations.
________________

Anastasia Kurakina
Nu fémimin (2016)
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