Manhã de sol


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Ferreira Gullar »»
 
Na vertigem do dia (1980) »»
 
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Manhã de sol
Matinée ensoleillée


Vianinha, Paulinho, Armando Costa que dia lindo, não?
Estou passando de carro
ao lado do cemitério São João Batista e quase escuto vocês
 aí dentro falando e rindo
debaixo desse sol.
Deve ser bom estar assim entre amigos livres das
 aporrinhações da vida
a olhar as nuvens
e os passarinhos
que por aí passarinham.
Invisíveis,
de que falam vocês
recostados no túmulo de Vinicius de Moraes? Do CPC?
 do Opinião? do futuro
da Nova República?
ou simplesmente flutuam
como os ramos
ao fluxo da brisa?
Paro no sinal da Rua Mena Barreto.
- E pode um marxista admitir
conversa entre defuntos?
Não é a morte o fim de tudo?
- É claro, digo a mim mesmo, é claro –
e sigo em frente.
Mas dentro da minha alegria
os três amigos continuam a conversar e a rir nesta manhã
 brasileira
que torna implausível a escura morte.
Vianinha, Paulinho, Armando Costa quelle belle journée, non?
Je passais en voiture
du côté du cimetière de São João Batista et je vous ai presque
 entendus à l'intérieur rire et parler
sous le soleil.
Comme ce doit être agréable d'être ainsi entre amis sans
 les tracasseries de la vie
à regarder les nuages
et les oiseaux menus
qui s'en vont là dehors.
Invisibles,
de quoi parliez-vous
arrimés à la sépulture de Vinicius de Moraes ? du CPC ?
 de l'Opinião 2? du futur
de la Nouvelle République ?
ou flottiez simplement
parmi les branches
emportés par la brise ?
Je m'arrête au feu de la rue Mena Barreto.
- Un marxiste peut-il vraiment admettre
que les morts conversent entre eux ?
La mort n'est-elle pas la fin de tout ?
– Pour sûr, me dis-je, pour sûr –
et je suis reparti.
Mais dans ma joie
les trois amis continuaient de discuter et de rire dans
 cette matinée brésilienne
qui rend la mort suspecte inacceptable.
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Tarsila do Amaral
Carte Postale (1929)
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